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O CHARME DO CONHECIMENTO
Andrea
Cordeiro
Da equipe do Correio
Antes de sair por aí
dizendo que brasileiro lê pouco, ouça o bibliteconomista Antônio
Agenor Briquet de
Lemos. Aos 62 anos, aposentado e com
50 anos de experiência em livros, esse piauiense de Teresina
refuta o chavão e também o complexo de inferioridade do
brasileiro. ‘‘Não é porque temos poucas e fracas bibliotecas que
não lemos.
Lemos sim. Nem mais nem menos que nos demais países’’, afirma.
Para justificar o argumento, ele cita que o Brasil — apesar das
limitações impostas à língua portuguesa pelo mundo globalizado —
detém o terceiro maior mercado editorial do Terceiro Mundo.
‘‘Perdemos para a Índia porque eles editam em inglês e para o
México, que edita em espanhol’’.
Tamanha experiência e
certeza nasceram ainda na infância, quando o pai dirigia uma
tipografia e editava livros. Ele e os 11 irmãos nasceram, cercados
de todos os tipos de publicações.
Mas o Piauí, na década de 40, não oferecia futuro para quem
quisesse. A única escola com nível superior da época era
particular e ruim. Não valia a pena continuar. Com essa certeza,
pai, mãe e oito dos 12 filhos seguiram para o Rio de Janeiro.
Antônio tinha 12 anos e precisou trabalhar. A escolha? Uma
biblioteca especializada em livros sobre Medicina. Tinha 15 anos.
Gostou e decidiu que esse seria o ramo a seguir.
Estudou Biblioteconomia e, em 1968, enquanto trabalhava no
Centro de Pesquisa da Organização Panamericana de Saúde, no Rio,
foi convidado para dar aulas na Universidade de Brasília, onde
ficou até 1992. De professor a diretor da Editora da UnB.
Aposentado, decidiu, com a mulher Maria Lúcia, também aposentada e
biblioteconomista, abrir uma editora na cidade. Em 1993, nasceu a
Briquet de
Lemos, que até hoje já editou 15 títulos e prepara mais três
para 2001.
Além da editora, a paixão por livros o fez abrir em Brasília, há
cinco anos, a primeira e única livraria especializada em livros de
arte. Um ramo que pode ser considerado difícil, mas para
especialistas no setor é um mercado com clientela razoável na
cidade. ‘‘Temos 200 clientes freqüentes, sem contar aqueles que
aparecem por curiosidade’’, diz. É muito, considerando que a
livraria Briquet de
Lemos ocupa uma pequena sala comercial
no oitavo andar do edifício Embassy Tower.
Uma das
razões, segundo Antônio, está na diferença em atender bem o
cliente. ‘‘Certa vez recebi um senhor que procurava um livro sobre
um artista polonês. Ele ficou espantado porque, além de lhe
entregar o livro, eu conhecia o mesmo artista. Essa é a diferença
dos vendedores de livros atuais. Eles não sabem em que estão
trabalhando’’, lamenta. ‘‘O conhecimento do ramo dá charme ao
trabalho. Não é só a mercadoria.’’
Correio Braziliense,
domingo, 2 de novembro de 2000
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