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O livre acesso à
informação: uma nova utopia?
Conferência de
encerramento do 14.º Seminário Nacional
de Bibliotecas Universitárias (SNBU),
realizado em Salvador, de 22 a 27 de
outubro de 2006
Faz 26 anos que, perante
a platéia do Teatro Castro Alves, tive a
honra e a alegria de proferir a
conferência de abertura do 1.o
Congresso Latino-Americano de
Biblioteconomia e Documentação. Era o
dia 21 de setembro de 1980 e a
hospitalidade soteropolitana recebia
bibliotecários de todo o Brasil e de
inúmeros países latino-americanos. O
tema do congresso foi a transferência de
informação. E o título de minha
conferência foi "A transferência da
informação entre o Norte e o Sul: utopia
ou realidade?" Embora seja este um
seminário nacional, a coexistência dele
com o IV Simpósio de Diretores de
Bibliotecas Universitárias da América
Latina e do Caribe traz-me à mente a
mesma aragem de confraternização e
intercâmbio de experiências entre os
colegas desta parte do Novo Mundo.
Ao receber o convite de
Maria das Graças Miranda Ribeiro para
apresentar a conferência de encerramento
deste evento, procurei em meu arquivo
aquele texto de 1980. Queria fazer uma
ponte histórica entre as duas
oportunidades que me foram propiciadas
para assim criar a empatia entre nossas
mentes e cativar a atenção de vocês.
Mas, ao ler o texto, descobri que,
mudadas algumas poucas palavras, aqui e
ali, para atender aos modismos que
teimam em inventar termos no lugar de
outros existentes para expressar os
mesmos conceitos, ou para incluir um ou
outro avanço tecnológico, aquela
conferência se apresentaria
contemporânea e pertinente. Cheguei até
a pensar em simplesmente relê-la,
acrescentando alguns comentários ou
glosas marginais, e convidar vocês a que
se detivessem nessa releitura. Não a
releitura praticada nas artes, quando um
artista recria, de certa forma, uma obra
original de um outro artista. Tampouco a
releitura como desconstrução do texto.
Mas a nova leitura, a leitura de novo, a
leitura que vai além da primeira
impressão, a leitura feita à luz de
novas experiências vividas pelo leitor
ao longo do tempo entre a primeira e
esta releitura. Não o farei, porém.
Preferi, para esta oportunidade,
apresentar um texto atual, e remeter os
interessados para o texto antigo que
pretendo colocar no sítio de minha
editora na internet.
Encerrado este seminário,
os presentes estão plenamente informados
do que se entende por acesso livre ou
acesso aberto aos conhecimentos. Talvez
nada reste a ser acrescentado. Todos os
dados, todas as definições, todas as
informações, todos os projetos e
realizações foram examinados. Assim,
procurarei concentrar-me em alguns
pressupostos, fatores ou elementos
básicos no processo de produção e
distribuição da informação.
O primeiro ponto a
considerar é que a informação é
produzida por seres humanos, como
resultado de um trabalho voltado para a
busca de conhecimentos. Esse trabalho
pressupõe: 1) as pessoas passaram por um
longo processo de formação intelectual,
durante o qual nelas foram investidos
recursos públicos e privados; 2) na
etapa da formação profissional,
principalmente na preparação de quadros
proficientes em pesquisa, os
investimentos são feitos de modo
dominante pelo Estado, mediante recursos
captados pelo pagamento de impostos por
parte da sociedade como um todo. Esses
investimentos incluem não o pagamento
dos custos diretos e indiretos da
educação. Sejam públicos ou privados os
recursos investidos são resultado das
riquezas produzidas no país, e,
portanto, estão em algum dos
compartimentos de nosso Produto Interno
Produto.
As instituições que
absorverão a mão-de-obra produzida pelas
universidades e equivalentes precisam de
investimentos para a implantação e
manutenção de suas estruturas de
pesquisa e desenvolvimento. São
laboratórios, bibliotecas, pessoal
técnico e auxiliar, instalações, etc.
que são mantidos com recursos oriundos
de nosso PIB. O Estado também mantém
mecanismos diversos de fomento à
pesquisa e desenvolvimento, que alocam
recursos a fundo perdido para
pesquisadores de diferentes áreas. O
primeiro resultado visível do trabalho
de pesquisa é a redação de um texto,
normalmente um artigo científico.
Neste ponto, e feitas as
devidas ressalvas por se estar lançando
mão de uma analogia, o que é algo muito
perigoso na argumentação científica,
gostaria de colocar perante vocês a
imagem de como funciona um outro setor
da economia, a siderurgia. Aqui os
investimentos majoritários são na
exploração do minério de ferro. Este é
uma dádiva da natureza, que, por se
encontrar no subsolo, pertence, por
definição, ao Estado; no caso
brasileiro, à União. E esta concede a
quem tiver meios e competência o direito
de lavra e comercialização desse
minério. Este é a matéria-prima da
indústria metalúrgica e de outras que
dependem do insumo de metais ferrosos.
Ao longo de sua história
econômica, o Brasil, que é um dos
maiores exportadores de minério de ferro
do mundo, senão o maior, passou a
aplicar políticas que levassem à mudança
desse perfil oriundo da época em que
éramos colônia: a de grande exportador
de matérias-primas (como o minério de
ferro) e produtos agrícolas (como o
açúcar e o café) de reduzido valor
agregado. Agregar valor a um produto é
submetê-lo a um tratamento que modifique
as características iniciais com que é
obtido. Em nosso campo, se digitalizo
uma publicação antes disponível apenas
em suporte de papel e a coloco na rede
mundial de computadores, estou agregando
valor ao produto original.
Voltando ao caso da
siderurgia, o empreendedor incorre em
despesas desde o momento em que investe
na pesquisa de novas jazidas do mineral,
num esforço que nem sempre é
bem-sucedido. Esses investimentos, no
caso de vir a ser obtida a concessão do
Estado para exploração do minério,
ampliam-se grandemente na montagem de
mega-operações, de que são exemplo as
atividades da Companhia Vale do Rio
Doce. Quer dizer, para que a Vale do Rio
Doce pudesse vir a comercializar minério
de maior ou menor valor agregado, como
péletes ou ferro-gusa, foi preciso que
realizasse gigantescos investimentos,
além de ter que pagar diferentes
impostos à União, estados e municípios.
E até mesmo indenizar comunidades
indígenas como compensação pelo uso de
áreas de mineração situadas em suas
terras. Depois de tudo isso, de todos
esses investimentos, a empresa começará
a ter lucro.
Como disse antes, o
primeiro produto concreto da pesquisa
científica é um texto que registra os
resultados alcançados pelo pesquisador.
Esses textos, que, direta e
indiretamente, resultam da aplicação
planejada de recursos da sociedade como
um todo, diferem, do ponto de vista
econômico, de qualquer minério, porque o
custo de sua apropriação pelos
empreendedores, como matéria-prima para
produção de uma mercadoria de maior
valor agregado é praticamente nulo. Até
que os resultados da pesquisa se
concretizem, se textualizem numa forma
compreensível e reprocessável, todos os
investimentos, todos os custos correram
por conta da sociedade.
O comprador do minério,
em qualquer de suas fases de
processamento, compra efetivamente algo
material, concreto, e do qual pode fazer
o uso que lhe aprouver. Pode até
estocá-lo à espera de melhor cotação no
mercado ou destiná-lo à formação de um
patrimônio familiar, como acontece com o
ouro.
No mundo das publicações
eletrônicas, porém, a informação, apesar
de ser mercadoria, vem sendo
comercializada como se fosse um serviço.
Quer dizer, cobra-se do comprador o
custo do serviço pelo qual a informação
é reprocessada ou agregada e tornada
acessível. Não compro a revista, como
acontecia na época da informação
não-eletrônica. Assim, não invisto na
formação de um patrimônio que estará
disponível para consulta por um longo
período de tempo.
Transferiu-se para o
campo da edição de revistas científicas
a mesma lógica que regulava a
comercialização de serviços de
agenciamento de assinaturas de revistas
em papel. Neste caso, a noção da venda e
compra de um serviço era clara,
compreensível e aceitável. As agências
de assinaturas atuavam como
intermediários legítimos no processo de
comercialização, assim como funcionam os
distribuidores de livros e as livrarias.
A formação das jazidas de
conhecimento científico não é, ao
contrário das jazidas de minérios,
resultado do acaso ou determinismo da
natureza, e de impossível reposição após
seu esgotamento. Elas são resultado do
esforço de indivíduos e dos
investimentos feitos pela sociedade, que
espera que esses esforços e
investimentos sejam compensados pelo
desvendamento de mistérios do mundo
natural, pela compreensão do que
acontece à nossa volta, pela solução das
grandes questões que nos assediam, pelo
preparo dos caminhos que levam a um
futuro de paz, bem-estar e igualdade. Às
vezes, tem-se a impressão de que os
grandes objetivos sociais da pesquisa
científica cedem lugar a interesses
minúsculos, personalistas.
O mundo
institucionalizado da pesquisa baseia-se
em um conjunto de normas e regras de
socialização, algumas bastante
ritualísticas, que, a título de
valorizar a meritocracia, acabaram por
estimular o surgimento de mecanismos de
ceva de currículos e pseudotalentos,
numa espécie de mandarinato anacrônico.
Assiste-se também ao
fortalecimento de mecanismos de troca de
favores, de uma simbiose, às vezes
denominada "parceria", entre seres que
deveriam permanecer autônomos, afastados
uns dos outros, em nome do respeito à
ética social e profissional. Os
pesquisadores cedem, gratuitamente, os
originais de seus artigos às editoras,
sabedores de que terão uma remuneração
direta na forma de uma avaliação que
considera prioritária a publicação de
textos e uma gratificação indireta e
subjetiva na forma de satisfação de
vaidades.
A crise da comunicação
científica, que teve início há mais de
vinte anos, quando os preços das
assinaturas de periódicos iniciaram uma
sistemática e desabalada carreira
ascensional, e que chega a assumir hoje
aspectos de um atentado ao livre acesso
à informação e a regras básicas de
funcionamento de um capitalismo menos
selvagem, não tem um único responsável.
As editoras de periódicos eletrônicos e
as empresas agregadoras de conteúdos não
estão sozinhas nesse palco. Atores
imprescindíveis são os pesquisadores que
entregam dadivosamente seus textos às
editoras. E é paradoxal que a crise
esteja hoje alcançando um ponto
intolerável quando se dispõe de
tecnologia que oferece todos os meios
para reduzir os custos e facilitar o
acesso universal à informação. É sempre
bom lembrar que a Capes gasta na
manutenção do portal de periódicos um
valor praticamente igual à metade do que
investe com bolsas de doutorado em
países estrangeiros.
O surgimento do conceito
de livre acesso (ou acesso aberto) aos
conhecimentos e à informação
fundamenta-se nas melhores conquistas
políticas e éticas do mundo
contemporâneo. E o que o impulsionou foi
certamente a forma abusiva e
discriminativa como se organizou a
edição e difusão de revistas científicas
na internet. Essa forma abusiva passou a
corroer o relativo equilíbrio, alcançado
após décadas de construção do mercado
editorial em ciência e tecnologia, entre
as necessidades da demanda e as
possibilidades da oferta de informação,
com base em regras que permitiam a
sobrevivência de todas as partes
envolvidas. Mecanismos de complementação
do acesso à informação, como o
intercâmbio ou empréstimo entre
bibliotecas, o fornecimento de cópias de
artigos por parte de bibliotecas
nacionais e até mesmo o surgimento da
National Lending Library for Science and
Technology, hoje British Library
Document Supply Center, no Reino Unido,
refletem um padrão de organização do
fluxo da informação que era funcional e
acessível à maioria dos usuários.
Poderiam não ter a comodidade e a
velocidade (a informação na ponta dos
dedos) dos dias de hoje, mas eram bem
mais racionais e econômicos.
Não vou me estender sobre
minúcias e exemplos do livre acesso. Nem
mesmo para chamar a atenção de que não
se trata de acesso "gratuito". Afinal,
nada existe de gratuito no mundo. Tenho
certeza de que isso foi suficientemente
abordado nos trabalhos trazidos a este
seminário. Deixarei, no entanto, um
comentário, que, mesmo que haja sido
lembrado, precisa ser repisado,
enfatizado, sublinhado, salientado e
repetido à exaustão. E esse comentário
refere-se à estratégia a ser adotada
para que o movimento de livre acesso
tenha condições de se impor como o
modelo canônico de comunicação dos
resultados de pesquisas. Essa estratégia
deverá incluir a luta para que se
modifiquem os atuais critérios de
avaliação da competência científica. Na
realidade, esses critérios avaliam muito
mais a produção e publicação de textos
do que a competência ou proficiência de
alguém em seu respectivo campo de
atuação. Como foi lembrado por alguns
autores, são muito mais "indicadores de
desempenho", que pouco avaliam em
matéria de qualidade.
Outro ponto a considerar
é a eliminação em programas de avaliação
de pesquisadores e docentes de medidas
que tendam a "viciar" os resultados da
avaliação. Quem trabalha na redação de
editais de licitação para compra de
materiais ou serviços conhece os
esforços que devem ser feitos para
evitar distorções que de certa forma
encaminham o resultado para um resultado
discutível.
Esta semana, ouvi o
representante de uma grande empresa
agregadora de conteúdos dizer que coloca
à disposição das instituições
interessadas em montar seus repositórios
de acesso livre a tecnologia que
desenvolveram com essa finalidade, não
de graça, evidentemente. Para mim a
idéia aparece pouco compreensível,
principalmente por saber que existem
programas de computador de utilização
gratuita que permitem a organização e
gerenciamento de arquivos abertos. Será
que as empresas agregadoras de conteúdo
estão antevendo a possibilidade de queda
na venda de seus serviços e vislumbrem
os repositórios institucionais e os
arquivos abertos como um filão a ser
explorado?
Em suma, há um aspecto
que não admite dúvida. Se as pesquisas
são financiadas com recursos públicos,
como acontece com a maioria esmagadora
das pesquisas realizadas no Brasil, os
resultados dessas pesquisas devem ser
colocados ao acesso do público de forma
a garantir sua máxima utilização.
Uma das diferenças entre
o movimento atual em prol do livre
acesso e os discursos de antanho sobre a
transferência internacional da
informação está em que naquela época
estávamos sozinhos quando defendíamos
uma ordem internacional mais eqüitativa
em matéria de informação científica.
Hoje, temos um movimento realmente
global, onde estão presentes
instituições e indivíduos de todos os
países, e onde a voz das nações mais
desenvolvidas faz ecoar quase os mesmos
pleitos que fazíamos há quase trinta
anos.
Em nossos países
também têm ganho impulso o movimento
pela criação de repositórios
institucionais, arquivos abertos e
bibliotecas eletrônicas agregadoras de
conteúdos de periódicos eletrônicos.
Isso é auspicioso e deve ser estimulado
de todas as formas. No entanto, no caso
do Brasil, convém lembrar que nossa
produção científica talvez não
corresponda a 3% da produção científica
mundial. E é preciso irmos buscar os
mais de 90% que faltam para completar o
pleno acesso à produção científica
internacional.
Esses 90%
encontram-se disponíveis, em sua
maioria, em provedores que não são de
livre acesso, principalmente por parte
das grandes empresas fornecedoras de
periódicos eletrônicos. Temos a
impressão de que estamos a reboque dos
interesses dessas empresas, quando
examinamos a maneira como é feita a
comercialização de seus serviços.
Comportamo-nos como compradores
acríticos, sem conhecer todas as
informações relevantes ao processo de
negociação e sem deter a capacidade de
negociar de modo a defender nossos
interesses de consumidor.
Temos que pensar
em soluções alternativas, que incluam
até mesmo a montagem e operação de
serviços de informação de valor agregado
em que ponhamos à disposição de nossos
usuários, de forma menos rapace, aqueles
títulos de periódicos eletrônicos
internacionais que sejam de maior
demanda local.
Há 26 anos pensávamos que
haveria mudanças, e que elas trariam a
concretização de nossas melhores
esperanças. Talvez a realidade não tenha
sido aquela com que sonhávamos. Isso,
porém, não nos impede de continuar
sonhando. Não nos impede de continuarmos
engajados nessa aventura por um mundo
onde todos possam ter livre acesso aos
conhecimentos científicos.
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