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A
TRANSFERÊNCIA DE INFORMAÇÃO ENTRE O
NORTE E O SUL:
UTOPIA OU REALIDADE?
Conferência de abertura
do 1.º Congresso Latino-Americano de
Biblioteconomia e
Documentação, realizado em Salvador, de
21 a 26 de setembro de
1980
Especialistas em
informação de uma das maiores regiões do
Terceiro Mundo, confrontados com o
dilema e o desafio em que se constitui a
luta pela superação da dependência e da
pobreza e em busca de mecanismos que
tornem a utilização da informação, em
todas as áreas da ciência, da técnica e
da cultura, uma das ferramentas básicas
no processo de conquista de uma vida
melhor e mais digna para nossos povos,
consideramos como da maior relevância o
tema proposto para este 1.º Congresso
Latino-Americano de Biblioteconomia e
Documentação - a transferência de
informação.
Não por que,
isoladamente, a informação em si seja o
elixir maravilhoso que poderá curar
todos nossos males, mas porque ela
representa, quando administrada
apropriadamente e com soberania de
decisões, um dos instrumentos que podem
acionar as mudanças sociais, econômicas
e políticas pelas quais todos almejamos.
Por outro lado, esta ocasião será
propícia para que indaguemos também
sobre como a informação tem servido para
perpetuar os mecanismos de dependência e
de desagregação social e cultural dos
países subdesenvolvidos. E, não menos
importante, talvez se possa iniciar aqui
o processo de formação de uma
consciência crítica do papel que, como
profissionais da informação, temos
desempenhado e viremos a desempenhar no
estabelecimento de formas de
transferência de informações que
contribuam efetivamente para aquelas
mudanças.
No marco conceitual desta
apresentação, a transferência de
informação é vista como o conjunto de
atividades que visam a transferir de um
país para outro ou entre vários países
Informações que se achem registradas em
algum tipo de suporte material, em
qualquer área da cultura, em seu sentido
mais amplo, e que podem ser tanto
primárias quanto secundárias. Abrange,
portanto, os materiais de informação
tradicionais e os que foram recentemente
incorporados ao processo de comunicação
social, como as fitas magnéticas de
computador, materiais audiovisuais, etc.
Considera tanto a transferência
realizada por agentes comerciais, como
livreiros e editores, como aquela que se
faz por intermédio de organismos
governamentais ou agências
internacionais. Não abrange a
transferência vertical de informações,
dentro de um único país, ou aquela que
tem lugar entre os indivíduos, sem a
mediação de instituições especializadas,
como as bibliotecas.
Da óptica dos países
dependentes, a transferência de
informação é geralmente considerada como
a aquisição de registros informacionais
nos países desenvolvidos - ou países
centrais da ordem econômica mundial -
que são os maiores produtores de
informação, e nos quais a indústria da
informação é hoje um elemento que, quase
sempre, acompanha e se integra às
atividades de outros setores
industriais, seja dentro dos próprios
países desenvolvidos seja em suas
ramificações internacionais. Embora
também sejam produtores de informação,
os países subdesenvolvidos não têm a
expressão dos países centrais e, além
disso, sua comunidade acadêmica e
cientifica tende a menoscabar e a
subutilizar a própria produção nacional,
inclusive como meio de comunicação de
resultados de pesquisas. Por mais que se
respeite e acate a aspiração dos
cientistas à maior difusão possível de
suas pesquisas e estudos, não se pode
deixar de estranhar que pesquisas que
foram financiadas por um país em
desenvolvimento, realizadas em suas
instituições, tenham os seus resultados
publicados preferencialmente em meios de
comunicação dos países desenvolvidos os
quais têm assim, entre outras vantagens,
a de mais rapidamente tirar proveito de
qualquer contribuição relevante
eventualmente encontrada nos resultados
de tais pesquisas.
Esse fato reflete também
a circunstância de que, provavelmente, a
maioria das pesquisas que se realizam
nos países em desenvolvimento estão
muito mais enfocadas para problemas que
não nos dizem respeito, sob a alegação
de que a ciência é neutra e universal,
do que para a procura de soluções
concretas para questões concretas que se
encontram no cotidiano desses países.
Sendo um processo
bilateral, também existe a transferência
de informação dos países
subdesenvolvidos para os países
desenvolvidos. Só que esta forma de
transferência, apesar das dificuldades
suscitadas por nossa organização
administrativa e comercial, está longe
de defrontar os obstáculos que enfrentam
os países em desenvolvimento para obter
transferência no sentido inverso. Todos
sabemos, por exemplo, que a Library of
Congress possui escritórios instalados
em muitos países subdesenvolvidos para a
coleta de documentos relevantes que são
enviados para sua sede em Washington. O
próprio êxodo de trabalhos originais
produzidos por cientistas do Terceiro
Mundo para revistas científicas de
países desenvolvidos é uma forma eficaz
de obter essa transferência de
informação.
As diferenças
quantitativas e qualitativas certamente
respondem pela existência de um
desequilíbrio no balanço da
transferência de informação entre as
nações. Isso, associado a interesses
comerciais e de hegemonia política, põe
por terra as aspirações a um intercâmbio
destituído de interesses materiais no
âmbito da cooperação internacional entre
o Norte desenvolvido e o Sul
subdesenvolvido.
As preocupações que temos
com o aprimoramento dos meios de acesso
à informação não nos devem levar ao erro
de superdimensionar sua importância,
vendo-a de forma isolada quase como
motor único e exclusivo das mudanças
sociais. Em 1968, por exemplo, um
renomado especialista norte-americano,
Harold Borko, que inclusive esteve certa
vez no Brasil, como consultor, disse que
a informação deve ser considerada "como
um meio pelo qual uma nação em
desenvolvimento pode aumentar seu
produto interno bruto, elevar o padrão
de vida de seus cidadãos e reduzir a
distância entre as nações que têm e as
que não têm". Para ele a informação é um
produto (commodity) que "deve ter
livre curso entre as nações em benefício
mútuo de todas". Esse tipo de colocação
simplificada tem sido repetido até por
bibliotecários e especialistas em
informação dos países em desenvolvimento
quando escrevem artigos sobre o papel da
informação no desenvolvimento econômico
e social. Suas tiradas excessivamente
otimistas e generalizadoras lembram, com
a devida vênia dos nossos anfitriões, o
condoreirismo grandiloqüente de Castro
Alves que via no livro a redenção dos
povos desta América.
Durante as décadas de
1950 e 1960, estiveram em grande voga as
idéias sobre modernização das estruturas
administrativas e introdução de
inovações tecnológicas nos países
subdesenvolvidos, como forma de
superação do atraso técnico e social,
sem que fosse necessário alterar as
estruturas políticas e econômicas desses
países. Na mesma época,
coincidentemente, tiveram grande impulso
os programas de assistência bilateral
entre países do Terceiro Mundo e nações
desenvolvidas, principalmente os Estados
Unidos, visando ao fornecimento,
gratuito ou subsidiado, de publicações
técnicas, científicas e didáticas
àqueles países. Não se pode deixar de
reconhecer que esse tipo de
transferência de informações desempenhou
certo papel na introdução de técnicas,
processos, métodos e até formas de
pensamento e ação política que
contribuíram para a adoção de soluções
que levaram ao agravamento da
dependência, se bem que, agora,
mascarada pela modernização de certos
setores da vida administrativa e social.
A transferência de
informação, feita de forma dependente e
sem análise crítica, pode, na área
tecnológica, gerar demandas artificiais
por produtos supérfluos ou criar uma
competitividade absurda que se reflete,
por exemplo, na proliferação de produtos
que têm a mesma finalidade. A indústria
farmacêutica representa o exemplo
característico dessa proliferação
nefasta de produtos: a Organização
Mundial da Saúde afirma que bastariam
cerca de 200 medicamentos essenciais
para tratar as doenças, chegando o seu
diretor a afirmar que com 50 remédios
faria milagres nos países
subdesenvolvidos. Enquanto isso existem
mais de 7000 produtos diferentes nas
farmácias brasileiras.
Não adiantam boas
intenções para encontrar soluções justas
para a transferência de informações
entre o Norte e o Sul. Ninguém discorda
da afirmativa encontrada em um documento
técnico recentemente publicado pela
Unesco de que "o conhecimento científico
e, em grau menor, o conhecimento (know-how)
tecnológico são uma herança comum da
humanidade, cujos resultados devem ser
compartilhados internacionalmente, uma
vez que o livre fluxo dessa informação é
um pré-requisito essencial para o
progresso mundial a longo prazo". Mas
todos sabemos como a retórica acerca do
"livre fluxo internacional da
informação" até hoje não deixou de ser
simplesmente isso: mera retórica.
Existem atualmente cerca
de vinte e cinco países que terminaram
sua primeira revolução industrial e mais
doze outros que se encontram numa etapa
mais avançada, a que se dá o nome de
sociedade pós-industrial. Por outro
lado, existem cerca de sessenta países
que ainda se acham numa etapa
pré-industrial, caracterizada por
atividades econômicas ligadas à
exploração e exportação de produtos
primários, da agricultura, silvicultura,
pesca e mineração. A eles se somam cerca
de quarenta nações que passam pelas
primeiras fases da industrialização,
adotando políticas de substituição de
importação de certos bens de consumo
primário e produtos intermediários, em
que a tecnologia industrial empregada é
em grande parte importada do exterior.
É nesse quadro de
predominância numérica do
subdesenvolvimento, compartilhado, em
diferentes graus, por uma centena de
países, e de controle efetivo das trocas
internacionais e da produção de
conhecimentos científicos e tecnológicos
por parte de uma minoria inferior a 40
países, que se deve examinar a questão
da transferência da informação.
Uma das características
da organização científica da maioria dos
países industrializados e
pós-industriais é que a informação
científica é tratada como uma mercadoria
sujeita às leis do mercado, sendo
considerada à semelhança de qualquer
produto industrial. Borko, de certa
maneira, tinha razão, ao dizer que a
informação contribui para aumentar o
produto interno bruto de um país. Porém,
até agora, ela só tem aumentado o PIB
dos países desenvolvidos. Nas sociedades
pós-industriais, as atividades ligadas à
informação, em seu sentido mais amplo,
já respondem por uma parte significativa
do seu PIB, sendo de se esperar que até
o final do século XX essa participação
da informação na economia desses países
será majoritária. Enquanto isso, os
países em desenvolvimento têm o seu
balanço de pagamentos onerado com a
transferência de divisas fortes para os
países centrais destinada à aquisição
dessa nova especiaria - a informação (só
que nos tempos das especiarias éramos
nós que as produzíamos, o que não
significa muito, pois afinal o dinheiro
ia mesmo era para a metrópole).
Outra questão
interessante é que as informações
transferidas dos países desenvolvidos
sob a forma de documentos não podem ter
aqui, devido ao nosso próprio nível de
desenvolvimento, o mesmo valor de uso
que têm nas sociedades de origem.
Exemplifiquemos. A assinatura de uma
revista X, especializada numa área
bastante sofisticada, custa mil dólares
por ano. Se, no Brasil, durante um ano,
forem lidos apenas dez artigos dessa
revista, cada artigo terá custado para
nós cem dólares. Teria saído mais barato
adquirir cópias desses artigos numa
biblioteca estrangeira.
É auspicioso verificar
que organizações internacionais, como a
Unesco, vêm mostrando ultimamente uma
percepção mais arguta dos problemas da
informação nos países em
desenvolvimento. Na quarta reunião do
Unisist sobre planejamento e
implementação de atividades nacionais de
informação em ciência e tecnologia,
realizada em maio deste ano, chegaram à
conclusão de que a distinção que se faz
entre países ricos e países pobres em
informação não e necessariamente uma
questão de ordem quantitativa, mas,
antes, uma questão de grau de utilização
das informações disponíveis. Mas,
pode-se perguntar por que as informações
disponíveis não são utilizadas. Estaria
a resposta, como muitos pretendem,
simplesmente na falta da chamada
educação dos usuários potenciais? Ou
estaria no fato de que os contextos em
que as informações são produzidas
diferem dos contextos encontrados no
Terceiro Mundo? Ou estaria a resposta
implícita no próprio modelo de
desenvolvimento que despreza o saber
local, ou que dele prescinde pela
importação de pacotes tecnológicos? Ou
seria a soma de tudo isso e algo mais?
No campo da saúde, a
Organização Mundial da Saúde vem
chamando a atenção para o papel que
desempenha a transferência de
informações médicas dos países centrais
no agravamento das distorções que se
verificam na educação médica e nos
sistemas de atenção à saúde de muitos
países em desenvolvimento. Como se sabe,
nesses países, os grandes problemas de
saúde da maioria de sua população podem
ser resolvidos com a adoção de medidas
simplificadas de prevenção e tratamento
das doenças mais comuns, ao lado de
medidas de melhoria das condições gerais
de saneamento e habitação. Não é um
ensino médico voltado exclusivamente
para uma medicina altamente
especializada e o emprego de uma
multiplicidade de equipamentos cada vez
mais complexos, destinados ao
diagnóstico das afecções
crônico-degenerativas, que resolverão os
problemas básicos de saúde do povo
brasileiro. Mas, a informação encontrada
em nossas bibliotecas médicas reflete
não essa necessidade social mais ampla,
mas as características de um contexto
altamente desenvolvido onde, talvez,
aqueles graus de complexidade e
sofisticação encontrem justificativa
social.
Os profissionais da
informação dos países em desenvolvimento
devem assumir um papel crítico em face
da questão da transferência da
informação. Não se trata, em absoluto,
de fechar as fronteiras a essa
transferência. Trata-se de adotar
critérios de seletividade na
determinação daquelas informações que
venham a ter vigência social em nosso
contexto, que, ao lado de assegurar o
progresso da ciência e da transmissão de
conhecimentos, realmente contribuam para
a solução de nossos problemas. Trata-se
de ser seletivo na importação da
informação, de montar esquemas efetivos
de utilização compartilhada da
informação, de criar sistemas eficazes e
participantes de disseminação e difusão
de informações.
É claro que isso somente
será viável na medida em que cada país
definir políticas científicas e modelos
de desenvolvimento que estejam voltados
para a solução efetiva dos problemas
básicos nacionais, de forma autônoma,
duradoura, e que beneficie todos os
segmentos da sociedade.
Fala-se muito ultimamente
em desenvolvimento endógeno, e na
necessidade de cada país se comprometer
em assegurar o seu desenvolvimento
científico e tecnológico com base na
própria capacidade científica e
tecnológica autônoma. A possibilidade de
êxito desse desenvolvimento endógeno ou
auto-sustentável depende em grande parte
da implementação de uma nova ordem
econômica internacional da qual resulte
um tratamento justo dos países
subdesenvolvidos nas relações de troca
internacionais, a eliminação da
dependência ou os mecanismos que a
propiciam, e a diminuição do hiato
científico e tecnológico que separa o
Norte do Sul.
O desenvolvimento
endógeno, com pleno aproveitamento e
controle nacional das riquezas de um
país, envolve a necessidade de
reformulações na política e na prática
da transferência de informação. No setor
da informação científica, isso
certamente exigirá uma ênfase maior na
utilização das informações produzidas
localmente e que sejam apropriadas para
a solução de problemas específicos, e
num maior intercâmbio de informações
entre países em desenvolvimento que
tenham características em comum, seja
por razões culturais ou de proximidade
geográfica.
Mas, à medida que uns
problemas vão tendo sua importância
reduzida, outros vão surgindo com
aspectos de ainda maior gravidade. No
processo de expansão da indústria da
informação para fora dos países
centrais, os sistemas computadorizados
de informação, ou bases de dados
bibliográficos, produzidos nesses
países, passam a ser o carro-chefe dessa
indústria. Países subdesenvolvidos, que
não resolveram ainda problemas
fundamentais como o do acesso aos
próprios documentos ou a criação de uma
imprensa científica estável, vêem-se
assediados e muitas vezes seduzidos
pelos mercadores desse novo produto. Faz
poucos dias, num congresso
internacional, fui assistir ao que
deveria ser uma sessão técnica sobre
sistemas computadorizados de informação
biomédica, mas que, na realidade se
constituiu numa enervante sessão de
promoção de vendas. Ali, o representante
do Commonwealth Agricultural Bureaux,
por exemplo, mostrava a excelência de
suas bases de dados, que supunha eu
serem voltadas para a agricultura e
disciplinas afins em sua maioria, como
fonte de informações bibliográficas em
medicina e saúde para os países
subdesenvolvidos. De outro lado, a
National Library of Medicine anunciava a
maravilha eletrônica que será a nova
geração do sistema MEDLARS. Enquanto
isso a Excerpta Medica tinha se recusado
a fazer uma demonstração de seu sistema
porque o reduzido comparecimento de
participantes não justificava o
investimento.
Hoje existem várias
indagações sobre a validade de sistemas
computadorizados de informação
cientifica que têm uma cobertura mundial
continuarem sendo mantidos e
comercializados por instituições
privadas ou instituições governamentais
de um determinado país. Graças à
iniciativa de organismos do sistema das
Nações Unidas, certas áreas do
conhecimento já dispõem hoje de sistemas
de informação verdadeiramente
internacionais, uma vez que
são operados e mantidos
por agências das Nações Unidas. Mas, a
medicina tem seus dois grandes sistemas
de informação de cobertura internacional
ou no setor privado ou numa agência
governamental, respectivamente a
Fundação Excerpta Medica, da Holanda, e
a Biblioteca Nacional de Medicina nos
Estados Unidos. Essa situação pode
originar o ensejo de utilizar a
informação como forma de pressão e até
mesmo como um dos elementos vitais no
bloqueio ou boicote a determinado país.
Basta citar o exemplo da biblioteca de
medicina de Teerã, a qual, enquanto o xá
esteve no poder teve acesso ao sistema
MEDLARS da NLM. Derrubado o xá e
deterioradas as relações entre o Irã e
os Estados Unidos, foi suspenso o
fornecimento do serviço do MEDLARS ao
Irã, prejudicando não só aquele país,
mas vários outros da região, que também
tinham acesso a esse serviço mantido em
Teerã.
As facilidades do
teleprocessamento facilitam grandemente
a transferência de informação em nível
técnico. Tais facilidades, no entanto,
podem ser anuladas pelas desvantagens
criadas com a centralização do sistema
em si num determinado país. Numa crise
internacional, basta desligar um botão e
se interrompe a transferência da
informação. Por isso é que provavelmente
A. Winter, do PGI da Unesco, pôde
afirmar há poucos dias que não existem
soluções mágicas para questões como a
transferência e aplicação de informação
para o desenvolvimento econômico e
social,o diálogo Norte-Sul ou a
cooperação técnica entre países em
desenvolvimento.
Por outro lado, os
problemas que enfrentamos no campo da
transferência não devem ser imputados
exclusivamente à ação das nações
desenvolvidas. Também nós, profissionais
da informação, e os usuários a que temos
de servir têm sua responsabilidade nessa
situação, seja por omissão, seja por
alienação, seja por absorção acrítica e
passiva de idéias que nada têm a dizer
nesta parte do mundo.
Quando o próprio mundo
desenvolvido se defronta com graves
problemas resultantes da aplicação
desordenada do conhecimento científico e
dos avanços tecnológicos, de que é um
dos muitos exemplos a crescente
deterioração do meio ambiente em escala
mundial, os países em desenvolvimento
têm de ser cada vez mais críticos em
relação ao transplante automático
daquelas soluções que possam repetir
aqui os mesmos agravos ao homem e à
natureza que foram ali perpetrados. Os
profissionais da informação devem
participar no esforço global das
sociedades subdesenvolvidas em prol da
adoção de modelos de desenvolvimento que
não destruam sua in-
dividualidade como
nações, que não abastardem sua
identidade cultural, que não aprofundem
ainda mais os desníveis sociais, que não
contribuam para tornar este mundo
inóspito para nossos descendentes.
Finalmente, convém
reiterar nossos aplausos pela convocação
deste congresso latino-americano, num
momento em que, mais do que nunca, é
necessário reforçar os laços de
cooperação e integração regional e
aperfeiçoar os mecanismos de intercâmbio
de experiências entre as nações deste
hemisfério. E salientar a felicidade da
escolha desta cidade de Salvador para
sede do congresso. Pois, para nós,
brasileiros, ela não é apenas um marco
histórico - nossa primeira capital -
mas, também, a melhor síntese daquilo
que se poderia considerar como expressão
do espírito e da vocação do verdadeiro
povo deste país. E nada melhor também do
que fazer um congresso sobre
transferência de informação exatamente
nestas terras que acolheram pela
primeira vez o conquistador estrangeiro,
dando início a mais um capítulo da
expansão do capitalismo europeu,
lançando as sementes da futura
dependência e subdesenvolvimento, e
produzindo, com a carta de Pero Vaz de
Caminha ao rei de Portugal, comunicando
a descoberta da nova terra, o nosso
primeiro caso de transferência de
informação.
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