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PERIÓDICOS ELETRÔNICOS:
PROBLEMA OU SOLUÇÃO?
(Palestra
pronunciada no X Encontro
Nacional de Editores
Científicos,
São
Pedro, SP, em 30 de novembro
de 2005.)
Foto: Ariadna/Morguefile

Se é fácil identificar qual foi o
primeiro, ou, pelo menos, os
dois primeiros periódicos
científicos impressos em
papel, o mesmo não se pode
dizer quanto à origem do
periódico eletrônico, apesar
de esse fato ter ocorrido há
pouco tempo. Além do vezo
humano de vangloriar-se pela
primazia, a disputa
justifica-se por haver
dúvida quanto à definição de
periódico eletrônico.
Antes do
advento do cederrom foram
buscadas alternativas para o
periódico impresso em papel:
por exemplo, microfichas
produzidas como saída de
computador ou mesmo feitas
com o emprego da técnica
micrográfica tradicional, e
revistas em disquetes. São
hoje exemplares que
pertencem à história. Ainda
na primeira metade da década
de 1990, quando a internet
ainda não havia se instalado
no Brasil, surgiram algumas
publicações em cederrom.
Tenho à minha frente o
número 1, datado do outono
de 1994, da Neo-Interativa,
que se anunciava como a
primeira revista brasileira
em cederrom. Que fim terá
levado?
Parece
haver consenso de que o
primeiro dessa nova
genealogia de produtos da
comunicação científica teria
sido Postmodern Culture.
Pelo menos as pessoas que o
criaram consideram-no como
“o primeiro periódico
eletrônico avaliado pelos
pares [...], o de mais longa
sobrevida, o primeiro
editado por uma editora
universitária, o primeiro
periódico acadêmico a
incluir multimídia em rede e
o primeiro a ser distribuído
gratuitamente.” Nas palavras
absolutamente imodestas de
seus criadores, essa revista,
mais do que qualquer outra,
inventou “seu suporte, seu
público e seus métodos”.
Surgiu em setembro de 1990
no formato de correio
eletrônico, depois em
disquete e, em janeiro de
1994, lançou versão em
hipermídia na internet.
Quando
surgiu, o periódico
eletrônico se anunciava como
solução para os problemas da
comunicação científica.
Rompiam-se os grilhões que
amarravam o artigo
científico contemporâneo a
uma metodologia e tecnologia
ultrapassadas, velhas de
mais de 500 anos, e a um
produto — a revista
científica — com mais de 320
anos de idade, que estava
aquém das necessidades de um
mundo cada vez mais
globalizado. Todos
exultamos. O periódico
eletrônico seria também a
libertação dos sistemas
perversos impostos pelas
editoras de periódicos
científicos, inclusive as
sociedades científicas,
isoladamente, ou a elas
associadas. Isso no mundo
desenvolvido. No mundo
subdesenvolvido a proposta
seduzia principalmente pelo
seu aparente baixo custo de
produção. Era uma proposta
que tinha tudo para dar
certo. Finalmente a produção
científica dos países da
periferia poderia valer-se
de um veículo de divulgação
universal, principalmente
agora que essa produção
vinha redigida numa língua
planetária.
E era uma
proposta que parecia pôr fim
a quase 80 anos de
insatisfação com a velha e
boa revista científica. Em
1919, Sir Robert Abbott
Hadfield, ilustre
metalurgista britânico,
inventor do aço-maganês, que
chegou a presidir a Faraday
Society, que existiu de 1903
a 1972, quando se fundiu com
outras para formar a Royal
Society of Chemistry,
sugeriu que fosse criada uma
central que classificaria os
originais de artigos e os
encaminharia às revistas.
Isso com a finalidade de
eliminar a dispersão dos
artigos por uma ampla gama
de periódicos, além da
enorme demora na publicação
e difusão desses artigos.
Dispersão que foi estudada e
comprovada cientificamente
pelo documentalista inglês
S.C. Bradford, que formulou
a lei que leva seu nome.
Também houve quem propusesse
o fim das revistas, pois os
artigos seriam distribuídos
como unidades independentes.
Reclamavam os cientistas que
cada fascículo de uma
revista continha apenas uma
minoria de artigos de seu
interesse. Que assim estavam
pagando por material
supérfluo. É claro que essas
propostas punham em risco os
interesses das associações
científicas, que eram então
as principais publicadoras
de revistas científicas.
Haja vista a reação à
proposta de J.D. Bernal
formulou em 1948. Tampouco
havia um mecanismo
operacional que
possibilitasse a implantação
de uma mudança radical
(Muddiman, 2004).
As
críticas aos produtores e ao
modelo que ainda predominava
na década de 1990 passaram a
se concentrar, nos últimos
anos, no aumento exagerado
dos preços das assinaturas.
A análise de dados
estatísticos de 123
bibliotecas afiliadas à
Association of Research
Libraries, dos EUA, mostrou
que, entre 1986 e 2004, os
gastos com a aquisição de
periódicos subiram 273%,
enquanto com a compra de
livros sofreram uma elevação
de 63%. Em 2003-2004, deu-se
um gasto médio superior a
5,5 milhões de dólares com a
assinatura de periódicos. Na
mesma época os recursos
eletrônicos consumiram 30%
do orçamento destinado a
material.
Segundo
dados obtidos pelo
Parlamento britânico durante
inquérito realizado em
2003-2004 sobre a questão da
comunicação científica, num
prazo de apenas cinco anos,
de 1998 a 2003, os preços
dos periódicos haviam subido
58% (House of Commons,
2004).
Há um
periódico que há anos vem
sendo citado como o campeão
dos preços altos. Trata-se
de um título (sem
trocadilho) que sua editora,
a Reed Elsevier, que já
reclamou de ser considerada
o saco-de-pancadas (the
whipping boy) de
bibliotecários e cientistas,
não quer ceder a nenhum
concorrente. A assinatura de
Brain Research para o ano de
2006 está em US$ 23.617,00,
abrangendo 66 fascículos
publicados durante o ano.
O citado
relatório do Parlamento
inglês chama atenção para o
fato de que os lucros das
editoras de revistas
científicas são
excepcionalmente altos em
comparação com os do resto
da indústria editorial,
chegando, no caso da citada
Reed Elsevier, líder do
mercado, a 34% de lucro
operacional.
Isso me
faz lembrar uma conversa que
tive, acho que no início da
década de 1990, com
representantes das editoras
da Oxford University e
Cambridge University,
renomadas publicadoras de
revistas científicas,
durante seminário sobre
editoras organizadas pelas
editoras da Universidade de
São Paulo e da Universidade
Estadual de SãoPaulo, em São
Paulo. Perguntei-lhes qual
era o ônus que as revistas
científicas representavam
para suas editoras, pois, na
minha visão de brasileiro,
periódico científico não
poderia dar lucro. A
pergunta os deixou no mínimo
excitados. Responderam, com
entusiasmo, que as revistas
não representavam ônus. Pelo
contrário, eram lucro certo.
E me perguntaram que, se
tivesse algum título novo a
propor, eles teriam grande
interesse em examinar a
proposta.
Convém
lembrar que os periódicos,
em qualquer formato, não se
destinam à compra por
pessoas físicas. Seus
consumidores principais são
as bibliotecas. Esse fato
talvez haja criado um
mecanismo viciado de
atribuição de preços, mesmo
porque muitas editoras
atribuíam preço mais alto
para as assinaturas ditas de
uso institucional.
O grupo
Reed Elsevier detinha, em
2003, 28,2% do mercado
mundial de informação em CTM,
seguida pela Thomson, que
adquiriu o ISI, com 9,5%,
Wolters Kluwer, com 9,4%,
Springer, com 4,7%, John
Wiley, com 3,9%, American
Chemical Society,com 3,6%,
Blackwell, com 3,6%, Taylor
& Francis com 3,6%, e o
restante (33,6%) distribuído
entre diferentes
fornecedores. Ou seja,
apenas oito fornecedores
concentram quase 70% do
mercado mundial (House of
Commons, 2004). Este
segmento da indústria
editorial apresenta forte
tendência ao monopólio e à
cartelização. Vejamos esta
seqüência cronológica:
1991 – A Reed
Elsevier compra a Pergamon
Press que publicava 57
títulos de ciências
biomédicas indexados nas
bases do ISI. Isso eleva o
total de títulos biomédicos
da Elsevier nessas bases
para 190.
1997-1998
– A editora Harcourt compra
17 títulos biomédicos da
Churchill Livingstone e 27
da Mosby. Com isso seus
títulos biomédicos nas bases
do ISI subiram de 118 para
162.
1998 –
Wolters Kluwer adquiriu 22
títulos da Plenum
Publishing, 41 da Thomson
Science e 37 da Waverly,
passando a ter 212 títulos
nas bases do ISI.
2001 – A
Reed Elsevier comprou a
Harcourt General e com isso
passou a ter 409 títulos
biomédicos nas bases do ISI
(Wellcome, 2003).
Atualmente, a Reed Elsevier
publica 2 600 títulos de
periódicos de CTM.
Segundo
diferentes estudos, parece
haver uma relação
significativa entre as
fusões e compras de empresas
e o aumento de preços das
assinaturas. (Susman, 2003).
Especula-se que haveria uma
relação maligna entre o
fator de impacto que a
revista tem no ISI e o preço
de sua assinatura, da mesma
forma que se avalia o mérito
acadêmico com base na
publicação em revistas de
mais alto impacto. Quer
dizer, uma técnica
mercadológica há muito tempo
usada no setor de hotelaria
e gastronomia: quanto mais
estrelas tiver o hotel ou
restaurante, mais caro ele
será.
Mas a
análise do papel das
editoras comerciais não
esgota a questão do aumento
de preços. Convém verificar
qual é a participação das
sociedades científicas nessa
história. Pelo menos para 20
delas, que tiveram suas
receitas divulgadas em
estudo recente, a publicação
de revistas é uma fonte
generosa de recursos. Basta
um exemplo: a American
Astronomical Society (AAS),
com um quadro de 2 400
associados, faturou, em
1999, US$ 5.834.020,00 com a
publicação de três revistas,
terceirizadas junto a uma
editora universitária. O
orçamento total da AAS foi
nesse ano de US$
8.255.845,00. (Willinsky,
2005).
Os
modelos atuais de
financiamento das revistas
científicas são:
a) O
assinante da revista paga a
assinatura e às vezes os
autores também pagam para
publicar seus artigos, as
page charges.
b) Os
autores sempre pagam para
publicar seus artigos, mas o
acesso é livre.
c) As
instituições a que as
revistas estão afiliadas
arcam com os custos,
sozinhas ou com apoio
governamental.
É
compreensível que as
bibliotecas do mundo inteiro
hajam sido forçadas, nos
últimos 20 anos, a impor
políticas rígidas de
contenção de gastos e
cancelamento de assinaturas.
Por conseguinte, além dos
aumentos que vinham sendo
praticados por conta de
fatores que jamais ficavam
claros, surgiam novos
aumentos provocados pela
diminuição da procura. Isso
foi particularmente danoso
para os países em
desenvolvimento. O acesso à
informação nesses países só
não entrou em colapso por
causa de serviços de
fornecimento de cópias,
como, por exemplo, o Comut e
a Bireme.
É nesse
contexto que se dá o
aparecimento e o rápido
crescimento do número de
periódicos eletrônicos.
Antes de continuar,
adotemos, para fins
práticos, uma definição de
periódico eletrônico.
Proponho que se aceite esta:
“Um recurso eletrônico, com
artigos completos, que pode
incluir elementos de
multimídia, disponível na
internet, e que é publicado
seqüencialmente, com uma
designação numérica ou
cronológica, e que pretende
continuar indefinidamente.
Pode ser a reprodução de uma
revista impressa ou uma
publicação exclusivamente em
linha.”
Se em
1991 havia mais ou menos 30
periódicos eletrônicos, hoje
(23/11/2005) seu número
chega a 16 587, que inclui
revistas propriamente ditas
e boletins. Com base na
oferta de alguns agregadores
de periódicos eletrônicos,
podemos supor que o número
de PCEs, em novembro de
2005, supera o total de 11
mil títulos.
Há
estudos que têm acompanhado
o uso desses materiais em
universidades
norte-americanas. Segundo
pesquisa realizada por Carol
Tenopir recentemente, houve
aumento na quantidade de
artigos lidos após o advento
da Rede. Dois terços ou mais
do material que hoje os
cientistas lêem vêm de
fontes eletrônicas. Em
astronomia, chega a ser de
80%. Esse estudo mostrou que
o pessoal da área médica
ainda é o que mais lê
material impresso (Tenopir,
2005).
Ao longo
desse período acumularam-se
observações que mostram que
as vantagens do PCE tinham
um grande alcance, além da
redução de preço. Uma dessas
vantagens, pelo menos do
ponto de vista dos
bibliotecários e dos
administradores de
universidades, seria a
economia de espaço nas
bibliotecas. Todos se
lembram dos estudos feitos
por Fremont Rider, na década
de 1940, que mostravam como
as bibliotecas
universitárias
norte-americanas, cresciam
de modo exponencial,
dobrando de volume a cada 16
anos. Isso deu origem a uma
verdadeira corrida à
microfilmagem de coleções
inteiras de periódicos e
outros materiais, como
teses. Lembram-se da
University Microfilms (que
hoje possui o ProQuest)?
Cometeram-se loucuras com
essa mania da microfilmagem
(Baker, 2002). Em certa
medida, foi a preocupação
com a questão da
disponibilidade e gestão de
espaço nas bibliotecas
norte-americanos que
justificou o surgimento do
Journal Storage Project
(JSTOR). Aliás, segundo
recente relatório de
pesquisa, parece que no
Reino Unido está ocorrendo
uma mania similar, agora com
a digitalização adoidada de
documentos, sem os devidos
cuidados de padronização e
controle de qualidade
(Digitisation, 2005).
Pois bem.
A economia de espaço não é a
mais importante, do ponto de
vista do usuário. As outras
são: acessibilidade — onde
houver um microcomputador
ligado à internet, você terá
acesso ao periódico;
divulgação ilimitada:
estaria garantida a
distribuição em âmbito
planetário, sem necessidade
de embalagem, selos,
correio, carteiro e atrasos;
rapidez de publicação:
redução do tempo entre a
submissão dos originais e
sua publicação; qualidade
garantida pelos pares:
manutenção da qualidade do
sistema, pois continuaria
sendo feita a revisão pelos
pares; extensão ilimitada:
não haveria limite para o
tamanho dos artigos; ligação
automática do artigo à rede
de seus antecessores ou
correlatos: isso seria
assegurado pela vinculação
(linking) do artigo com as
referências citadas;
utilização de cores sem
qualquer limitação; uso de
diferentes métodos de
indexação; buscas fáceis;
utilização de multimídia;
interatividade; remissivas
para outros recursos
disponíveis na rede; e o
aumento da utilização de
material antigo.
Parece
que só haveria uma
desvantagem intrínseca: a
incerteza quanto à
permanência do suporte
digital, que, segundo
alguns, não passaria de 15
anos. Há outras
desvantagens, por assim
dizer, extrínsecas, que não
dependem do veículo em si,
mas de como se construíram
os mecanismos políticos e
econômicos de
comercialização dos PCEs.
Uma dessas desvantagens e
que toca de perto o trabalho
dos bibliotecários refere-se
aos procedimentos de
seleção, compra e
gerenciamento dos serviços
de acesso aos PCEs. E, é
claro, os custos mais alto
desses procedimentos, em
comparação com os que eram
praticados com os periódicos
impressos em papel.
As
bibliotecas, nos países
desenvolvidos, podem lançar
mão de várias possibilidades
de para compra da licença de
acesso aos PCEs:
1)
Diretamente de cada editora,
que pode oferecer um ou
poucos títulos ou milhares,
como Reed Elsevier.
2) De
empresas que prestam serviço
de hospedagem de conteúdo
para as editoras que mantêm
periódicos em linha, como
Ingenta, MetaPress, Extenza
(Atypon), ou até de
sociedades científicas que
realizam serviço semelhante,
como o American Institute of
Physics (Online Journal
Publishing Service).
3) De
agregadores comerciais, que
reúnem periódicos de
múltiplas editoras, como
Ovid, EBSCO, OCLC
(FirstSearch), etc.
Cada uma
dessas opções tem suas
características e elementos
complicadores. Além das
complexas negociações com os
fornecedores, que podem
exigir dos bibliotecários e
administradores a mesma
habilidade de comerciante da
23 de Março ou da José
Paulino, é preciso controlar
se o que está disponível
corresponde ao que foi
comprado, o dessparecimento,
sem mais nem menos de
títulos, interrupções no
acesso, etc.
Separei
para tratamento à parte uma
outra grande vantagem
prenunciada pelo PCE: seu
baixo custo. O PCE surgia
num momento crítico. Como
vimos, fazia mais de 30 anos
que os preços das
assinaturas dos periódicos
científicos vinham subindo
de forma sistemática, sempre
acima da inflação dos países
desenvolvidos. Isso está bem
resumido na página de
apresentação do projeto
JSTOR: “O rápido
desenvolvimento das
tecnologias da informação,
especialmente dos recursos
de edição eletrônica, leva
muitos membros da comunidade
bibliotecária a crer que
haverá maneiras de aliviar
as pressões [dos custos]. Os
custos (supostamente)
menores relativos à
editoração, produção,
armazenamento e distribuição
de conteúdo eletrônico
causaram a esperança em
alguns setores de os preços
das revistas realmente
seriam reduzidos, ou que
surgiria um modelo de
publicação menos dispendioso
(isto é, a publicação feita
pelos próprios
pesquisadores, a
autopublicação).
Infelizmente, nenhuma das
iniciativas de edição
eletrônica até hoje resultou
em economia relevante para
as bibliotecas. As editoras
que oferecem assinaturas de
versões eletrônicas e
impressas tendem a vendê-las
por um preço de “pacote”
(bundled), em geral de 10 a
30% acima do preço da
assinatura apenas da versão
em papel. Relutantes em
abandonar as assinaturas das
versões em papel, na
realidade aumentando o custo
da assinatura. Nesta época
ainda de experiência, as
bibliotecas justificam esses
gastos adicionais
argumentando que estão
oferecendo um nível mais
elevado de serviço a seus
usuários, ao mesmo tempo em
que aprendem sobre o impacto
e os padrões de uso dos
formatos eletrônicos da
literatura científica.
Embora essas decisões possam
ser tomadas (e justificadas)
com relação aos primeiros
experimentos eletrônicos, é
imporvável que essa posição
possa ser sustentada
indefinidamente.” (Ver em
www.jstor.org)
O fato é
que hoje não estamos mais
numa fase experimental. O
caminho está aberto para a
hegemonia a curto prazo do
periódico eletrônico. Em
2005, cerca de 75% dos
periódicos científicos têm
um equivalente (ou espelho,
se me é permitido usar essa
palavra que designa as
cópias de arquivos
eletrônicos colocadas em
diferentes lugares)
eletrônico ou são
exclusivamente eletrônicos
(Turner, 2005).
Ao contrário
do que acontecia com as
assinaturas de periódicos
impressos em papel, cujos
preços eram públicos, as
assinaturas de periódicos
eletrônicos são flutuantes,
e dependem do tipo de
arranjo ou composição de
títulos a que chegam cliente
e fornecedor. Há contratos
que incluem uma cláusula de
non-disclosure, pela qual o
cliente não pode revelar
quanto pagou. Apenas a
título de exemplo e com a
ressalva de que não disponho
de maiores detalhes sobre as
condições contratuais de
cada caso, vejamos quanto o
consórcio de 70 bibliotecas
de instituições de ensinoe
pesquisa do estado da
Virgínia (EUA)
(www.vivalib.org) gastou com
aquisição de periódicos em
2005:
No ano de
2003/2004, esse consórcio
baixou um total de 3 654 032
artigos desses diferentes
fornecedores. O agregador
comercial foi responsável
por 68% desse total, ou seja
2 496 984 artigos.
O outro
exemplo é o da Capes. Em
2004 o consórcio Portal de
Periódicos dava acesso a 8
515 títulos que eram
utilizados por 135
instituições. O total
despendido foi de US$
16.280.139,00, o que
corresponde a quase 50% dos
investimentos com bolsas de
estudos no exterior no mesmo
período. Nesse portal os
dados estatísticos mostram
que em 2004 foram baixados
mais de 12 milhões de textos
completos. Quase 50% dos
textos baixados foram da
editora Reed Elsevier (ScienceDirect),
que, sozinha, publica 2 100
títulos. A tabela que mostra
esses dados tem um segundo
título que diz “acesso às
bases com texto completo”
(Almeida, 2005; Capes,
2005). Há uma falta de
clareza. Não se sabe se
“texto completo” é o mesmo
que “artigo completo”.
Ficamos sem saber se texto
completo significa artigo
completo, resumo completo,
patente completa, livro
completo, ou seja, unidades
completas de documentos, Se
a dividirmos o total de
“textos completos” pelo
total de usuários potenciais
do portal, informado pela
Capes como sendo de 1 321
000 docentes, estudantes e
pessoal técnico, teremos
9,63 “textos completos” por
usuário potencial. Seria
possível informar a
quantidade de páginas? Pouco
ou muito?
O
fornecimento de periódicos
eletrônicos baseia-se não na
compra de um produto, mas no
aluguel ou licenciamento de
uso de um serviço por um
prazo delimitado. A
interrupção do serviço
implica a perda do direito
de acesso. Esse direito
poderá ser mantido desde que
se continue pagando uma
quantia proporcional ao uso
anterior. Em síntese, ao
contrário do que acontece
com a publicação impressa, o
usuário não conserva uma
coleção mesmo depois de
cancelada sua
assinatura.
Foi
observado, há seis anos, que
nem sempre as versões
impressa e eletrônica de um
mesmo periódico se
equivalem. Talvez hoje a
situação seja diferente. Mas
vale a pena levar em conta a
observação dessas variações
feita por Helen Atkins
(Atkins, 1999):
- A
versão autorizada e integral
é a impressa, que apresenta
mais conteúdo (somente são
disponibilizados em linha
artigos selecionados).
- A
versão autorizada e integral
é a eletrônica, que
apresenta mais informações.
- Nenhuma
das duas é integral ou
autorizada, ou seja, é
preciso acessar ambas para
obter o conteúdo na íntegra.
- As duas
versões são mais ou menos
equivalentes, mas pode haver
diferenças nos artigos,
dependendo da versão que foi
acessada.
Percebe-se que vêm
aumentando as manifestações
de diferentes setores que
revelam insatisfação com o
ponto a que chegou a
indústria da comunicação
científica. Vários modelos
alternativos têm sido
propostos. Algumas, como a
de Herbert Van de Sompel e
colaboradores propõe uma
alteração radical no atual
modelo, com a finalidade de
torná-lo mais ágil,
aproveitando ao máximo os
recursos ainda inexplorados
da tecnologia da informação
e da internet, mais
garantido, com melhores
filtros de qualidade e maior
competitividade (Sompel,
2004). Outra proposta, menos
abrangente, foi feita por
Ulrich Pöschl, com a
finalidade de criar um
processo, com mais de uma
etapa, em que houvesse
revisão interativa pelos
pares e debates públicos
(Pöschl, 2004).
Uma
observação presente em
muitos estudos é que no
sistema atual o poder
público aloca recursos para
a comunicação científica por
meio de três vias, ou seja,
o contribuinte paga três
vezes: 1) quando desembolsa
dinheiro para financiar
pesquisas; 2) ao pagar os
salários dos cientistas que
atuam como avaliadores de
originais; e 3) quando
financia as bibliotecas. E,
por fim, ainda tem que
pagar, e caro, pelas
publicações que relatam os
resultados das pesquisas.
Em
contrapartida a essa
situação, inúmeras
iniciativas, em diferentes
lugares, têm ensejado a
criação de periódicos
eletrônicos de acesso livre,
bem como repositórios ou
agregadores que possibilitam
o uso gratuito das
informações. Essa é uma área
que cresce aceleradamente e
que hoje já forma uma
espécie de cruzada em defesa
da desmercantilização do
conhecimento. Só me será
possível, neste pouco tempo,
citar alguns casos.
A
Association of Research
Libraries, dos EUA, iniciou
em 1997 o projeto SPARC
(Scholarly Publishing and
Academic Resources
Coalition), que congrega
universidades, bibliotecas
de instituições de pesquisa
e outras organizações. Sua
finalidade é oferecer “uma
resposta construtiva às
disfunções do mercado no
sistema de comunicação
científica.” O SPARC atua
como incubadora de soluções
alternativas aos periódicos
comerciais e aos
agregadores; estimula
parcerias que estimulem a
expansão do setor
não-comercial do sistema de
publicação científica. Além
de atividades de formação de
opinião, educação dos
usuários e de demonstração
da viabilidade e eficiência
de um sistema de edição que
se contraponha ao atual,
trabalha no sentido de
ampliar a desagregação hoje
dominante. O PubMed Central
do National Institutes of
Health é exemplo de trabalho
em que colaborarou o SPARC.
Outro
exemplo importante é a
HighWire Press, uma divisão
das Stanford University
Libraries. Ela hospeda 885
periódicos, de acesso
gratuito ao texto integral.
São periódicos de alta
qualidade, todos submetidos
a avaliação de originais
pelos pares, e que hoje
oferece mais de um milhão de
artigos em linha. Ali se
encontram 73 dos periódicos
citados com mais freqüência.
Quanto à
questão da recuperação da
informação nesse mosaico,
aparentemente caótico, de
iniciativas de acesso livre
o OAIster, desenvolvido pelo
University of Michigan
Digital Library Production
Service, tem o objetivo de
“crier uma coleção de
recursos digitais, de
orientação acadêmica,
disponíveis gratuitamente, e
que eranm de acesso difícil.
Já contém mais de 6 milhões
de registros de mais de 500
instituições. (http://oaister.umdl.umich.edu/o/oaister/)
Li notícia
de que o ISI está planejando
o desenvolvimento de um
serviço de acesso a esse
tipo de informação.
Todos
conhecemos a história
bem-sucedida do projeto
SciElo, iniciativa da
Bireme, implantada em 1998,
financida pela Fapesp e
CNPq. Temos aqui um exemplo
de um agregador
não-comercial, mantido com
recursos públicos e que
oferece acesso gratuito a
mais de 145 periódicos
brasileiros, de diferentes
disciplinas, e que atendam a
critérios de qualidade
editorial. Além do SciElo
Brasil, existem as versões
de Chile, Cuba, Espanha e
Venezuela, com 112 títulos.
O total de revistas
disponíveis no Scielo é,
portanto, de 257 títulos.
Além de agregador, fomenta a
produção de periódicos
eletrônicos no continente
mediante o desenvolvimento e
aplicação da chamada
metodologia ScieElo para
esse tipo de edição.
Também em
1998 foi criado o African
Journals OnLine (AJOL), como
um projeto-piloto
administrado pela
International Network for
the Availability of
Scientific Publication
(INASP). Hoje hospeda 229
periódicos de 21 países
africanos, e tem projeto de
desenvolver sistema similar
para os países do Sul e do
Sudeste asiáticos.
Um modelo
interessante (do tipo “o
autor paga, mas o acesso é
grátis”) é o da Public
Library of Science. Seu
objetivo é publicar revistas
com a mesma qualidade
editorial e científica das
revistas tradicionais, em
formato eletrônico.
O serviço
PubMed Central oferece
acesso gratuito ao texto
completo ou quase completo
de 160 títulos de periódicos
da área biomédica (http://www.pubmedcentral.nih.gov/about/openftlist.html).
O Centro de
Informações Nucleares da
Comissão Nacional de Energia
Nuclear mantém um sítio
regualmente atualizado sobre
periódicos de acesso livre
na internet. No final de
novembro de 2005,
relacionava 2 209 títulos
nas diferentes áreas. Ver em
http://livre.cnen.gov.br/Default1024.asp
O
movimento em prol do acesso
livre
Declarações de eminentes
foros têm enfatizado a
necessidade de se assegurar
o livre e amplo acesso aos
resultados das pesquisas
científicas. Em reuniões
realizadas em Berlim,
Budapeste e Salvador
especialistas de variadas
disciplinas e de muitos
países, bem como
instituições nacionais e
internacionais, têm
concordado com a necessidade
de ser estabelecida uma
política que assegure o
direito à livre circulação
das informações científicas
(IBICT, 2005; Salvador,
2005; Wellcome, 2005).
Encontra-se uma boa
introdução sobre acesso
livre em
http://www.earlham.edu/~peters/fos/overview.htm
Um dos
mais completos documentos
sobre os aspectos econômicos
e políticos da comunicação
científica foi o relatório
da comissão de inquérito do
Parlamento inglês que
estudou essa questão e que
já citei. Ali se anuncia que
brevemente o Reino Unido
estabelecerá uma política
para lidar com a
disseminação e o acesso aos
resultados de pesquisas
realizadas nesse país. É
provável que essa política
se fundamente em quatro
princípios fundamentais:
1) As
idéias e conhecimentos
resultantes de pesquisas
financiadas com recursos
públicos devem ser tornados
disponíveis e acessíveis
para uso público,
questionamento e análise da
forma mais ampla, rápida e
eficiente que for possível.
2) Devem
ser implantados mecanismos
eficazes que assegurem que
os resultados de pesquisas a
serem publicados se submetam
a rigorosa garantia de
qualidade.
3)
Modelos e mecanismos de
acesso aos resultados de
pesquisas devem ser tanto
eficientes quanto eficazes
em termos de custos no que
concerne à utilização de
recursos públicos.
4) Os
resultados de pesquisas
atuais e futuras deverão ser
preservados e mantidos
acessíveis não só durante os
próximos anos mas para as
gerações futuras.
A reação
da Royal Society não se fez
esperar. No dia 24 de
novembro de 2005, soltou
nota no seu sítio na
internet. Ela defende o
vetusto modelo que inaugurou
em 1665 e declara o receio
de que a implantação de uma
política de apoio a
periódicos de acesso livre
possa ter um efeito danoso
para as sociedades
científicas e associações
profissionais. A polêmica
coloca em campos opostos os
conselhos de pesquisa do
Reino Unido e sua
tradicionalíssima academia
de ciências.
A
Declaração de Salvador sobre
Acesso Livre: a Perspectiva
do Mundo em Desenvolvimento,
aprovada em seminário
internacional que se
realizou junto com o 9.
Congresso Internacional de
Bibliotecas e Informação em
Saúde, em Salvador, em
setembro de 2005, reitera as
posições que vêm sendo
defendidas pelos defensores
desse movimento
internacional (Salvador,
2005).
Conclusão
Durante
muitos anos, apesar das
críticas isoladas que
despontavam aqui e ali, a
revista científica reinou
toda poderosa como o veículo
ideal para a comunicação de
resultados de pesquisas e
troca de informações entre
os cientistas. Elas
constituíam um
elemento-chave na atuação da
maioria da sociedades
científicas, que as tinham
como único benefício a
oferecer a seus associados.
Não constituíam um produto
lucrativamente atrativo para
a maioria das editoras
comerciais. Essa situação,
acompanhando as próprias
mudanças que ocorreram na
estrutura da pesquisa
científica, principalmente a
partir da década de 1960,
foi sendo modificada de
forma paulatina e constante.
Essa modificação consistiu
essencialmente em tornar os
conhecimentos produzidos
pela ciência — os resultados
das pesquisas — como uma
matéria-prima dessa nova
etapa do desenvolvimento do
capitalismo, de uma economia
que tende cada vez mais a
estar baseada na indústria
do conhecimento. Matéria-prima
abundante, inesgotável e,
antes de tudo, fornecida
gratuitamente e sem
expectativa de recompensa
material. Implantava-se
assim, em pleno capitalismo,
uma versão pós-moderna do
colonizador predador que
recebia dos índios
pau-brasil em troca de
espelhinhos e miçangas.
Espelhinhos e miçangas a que
equivalem os lauréis
efêmeros e as pífias
gratificações por
produtividade científica.
É paradoxal
dizê-lo, mas foram as
facilidades advindas dos
avanços da tecnologia da
informação que geraram a
crise atual. Quer dizer, a
crise foi gerada por razões
de ordem econômica e
cultural. A inércia dos
cientistas, o
conservadorismo de sua
maioria, a aceitação passiva
do statu quo, a ausência de
consciência crítica, a busca
da quimera de critérios
“objetivos” de avaliação de
mérito, o fetiche da
quantificação, a adoção de
uma atitude complacente
diante dos problemas que os
cercam.
Tudo que se
havia acumulado nos últimos
séculos com os avanços da
tecnologia da comunicação e
da informação, desde a
imprensa de Gutenberg,
passando pela invenção da
linotipo, da impressão
offset, das máquinas
rotativas de impressão, até
os computadores e a internet
seriam indícios, para o
marciano distante que
estivesse a nos observar, de
que estaria chegado o
momento para que se desse a
plena e universal difusão
dos conhecimentos a todos os
interessados a um preço
acessível ou até mesmo
gratuitamente.
O aumento
exorbitante dos preços das
assinaturas dos periódicos
em papel continuou sendo
praticado com os periódicos
eletrônicos nos chamados
“big deals” em que as
grandes editoras empacotam
os títulos e enrolam os
compradores. O chamado
bundling (quando o
fornecedor exige que o
consumidor compra um pacote
ou feixe (bundle) de
periódicos eletrônicos,
mesmo que a ele só interesse
um dos títulos não passa de
um mecanismo de venda
casada. Na definição do
Ministério da Fazenda:
“prática comercial que
consiste em vender
determinado produto ou
serviço somente se o
comprador estiver disposto a
adquirir outro produto ou
serviço da mesma empresa. Em
geral, o primeiro produto é
algo sem similar no mercado,
enquanto o segundo é um
produto com numerosos
concorrentes, de igual ou
melhor qualidade. Desta
forma, a empresa consegue
estender o monopólio
(existente em relação ao
primeiro produto) a um
produto com vários
similares. A mesma prática
pode ser adotada na venda de
produtos com grande procura,
condicionada à venda de
outros de demanda inferior.”
O artigo 39 do Código de
Defesa do Consumidor
considera essa uma prática
abusiva, ilegal, portanto.
Como
muito bem sintetizou o
professor Jean-Mark Sens: “a
publicação eletrônica
realmente não revoluciona a
publicação científica, porém
acentua algumas das tensões
existentes em termos de
flutuação de preços,
durabilidade, duplicação de
informação, inovação e
obsolescência relacionadas
com vida efêmera dos
periódicos” (Sens, 2003).
A
situação atual é
insustentável para todos os
países. Para mudá-la de
forma conseqüente e
duradoura será preciso
abordar o problema no
contexto mais amplo dos
mecanismos de incentivo à
produção científica, no
abandono da avaliação com
base na publicação em
revistas de determinado
“fator de impacto” ou que
sejam tidas como de
prestígio internacional. As
universidades e demais
instituições de pesquisa
deverão encampar o movimento
internacional do Acesso
Livre (Open Access),
promover a implantação de
repositórios institucionais
e valorizar em primeiro
lugar a publicação em
revistas nacionais que
estejam disponíveis
gratuitamente na internet.
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