O BIBLIÓFILO ELETRÔNICO

Bibliófilo eletrônico. É
assim que gostaria de
ser chamado. Alguns
adotam o jeito e a
pronúncia anglo-lusitana
e sintetizam para
e-bibliófilo em que o e
de eletrônico é dito i.
Não importa. Qualquer
que seja o nome, o fato
é que sou um amante, um
aficcionado, um
incorrigível adorador
dessa que foi a maior
invenção de todos os
tempos: o livro
eletrônico em seus
diferentes formatos.
Além de tudo sou um
colecionador dos
suportes e maquininhas
que foram criados,
principalmente a partir
de 2020, para registrar
as criações da mente
humana. Sempre que
posso, percorro, em
êxtase, minha coleção, e
não posso passar sem o
diário contato com o
mais recente apetrecho,
que me permite
delirantes fantasias em
matéria de interação com
uma máquina que falta
pouco para se tornar
realmente inteligente e
totalmente ergonômica,
para não dizer sensual.
Não estou me referindo
ao conteúdo, mas ao
continente com suas
possibilidades de
experiências inéditas e
prazerosas.
O livro
com que agora me deleito
pode ser ajustado ao
tamanho que for mais
conveniente para o
leitor. Seu chassi é
feito de nanotubos de
carbono, que, com o
calor do corpo, a ele se
amolda, em gozosa
intimidade. Feito um
relógio mole de Dalí.
Filho da tecnologia
quântica, não possui
partes móveis nem
destacáveis e a
interação comigo se faz
por comando de voz ou de
pestanejar: basta um
comando verbal ou
determinadas e simples
seqüências de piscadelas
para que as páginas
sejam mudadas ou que se
ative o mais avançado e
flexível sistema de
hipertexto e multimídia.
É a energia de meu corpo
(energia osmótica) que o
alimenta, e está
codificado para
reconhecer somente os
impulsos energéticos de
meu corpo, o que me
garante segurança e
privacidade.
Disponho
de ligação sem fio com a
rede universal que faz
anos substituiu aquele
vazadouro de lixo em que
acabou se transformando
a internet: a cosmonet,
que me fornece
informações em tempo
real e me conecta com
outros aparelhos iguais
a este.
Além de
poder ler o texto numa
tela que capta a
sensibilidade e o grau
de cansaço de minha
visão, de modo a se
ajustar ao máximo de
conforto por mim
exigido, há anos que os
livros eletrônicos
oferecem a
funcionalidade de
geração de voz a partir
do reconhecimento óptico
do texto impresso. Uma
de minhas paixões atuais
é ouvir algumas das
grandes obras literárias
narradas por grandes
atrizes de tempos idos.
Outro dia era a voz
sintetizada de Marylin
Monroe que me lia as
peças de teatro de
Nelson Rodrigues.
Disseram-me que há um
sítio na cosmonet onde
se encontram as vozes
sampleadas de
personagens de
diferentes épocas e que
elas podem ser
instaladas em seu livro
eletrônico e usadas para
ler o texto que você
quiser. Imagine você ter
a biografia da Isadora
Duncan lida pela voz da
própria.
Mas estou
me desviando da paixão
principal de
colecionador, que me
levou recentemente a ser
admitido como sócio
integral da Sociedade
Internacional de
Bibliófilos da Era
Eletrônica, em
reconhecimento à
seriedade de minha
atuação nesse setor do
colecionismo e por ter
podido reunir um dos
mais completos e
valiosos acervos de
livros eletrônicos.
Tenho aqui muitas
preciosidades. A
primeira digitalização
de Vidas Secas,
de Graciliano Ramos,
ainda em suporte
digital, e cuja
curiosidade maior era
oferecer alguns extras,
como a versão manuscrita
do texto original, com
as correções à mão
feitas pelo autor. Ali
se diz que esse
manuscrito pertencera a
importante colecionador
das versões primitivas
do livro. Algo a
conferir. Mas não posso
mostrá-la a meus amigos
e visitantes porque há o
risco de se perder a
informação por causa da
precariedade do processo
que era usado na época
para gravar os discos.
Na realidade, dizia-se
queimar o disco, verbo
que me parece mais
apropriado tal era a
rudimentariedade do
processo se comparado
com o que hoje se
emprega.
Recentemente comecei um
trabalho de arqueólogo.
Ocupo-me agora de
pesquisas nas
profundidades esquecidas
de trilhões de páginas
que ficaram congeladas
no cemitério da extinta
internet. No curso
dessas pesquisas,
procuro localizar obras
que permaneceram
perdidas, que jamais
foram lidas, versões
inacreditáveis de textos
conhecidos, variantes
profanas dos mais
sagrados textos,
iconoclastias e heresias
inimagináveis, um oceano
subterrâneo de criações
sublimes ou demoníacas
do espírito humano.
Ao me
deparar com algo desse
gênero, sempre cuido de
averiguar se alguém o
teria encontrado antes.
Quais os registros que
existem, quais os
vestígios deixados para
nós, arqueólogos dessa
cultura perdida do
universo virtual.
Tudo isso me
deixa muito contente. Sei
que sou o único e feliz
possuidor do caminho que
leva a essas criações e,
portanto, detenho, de fato,
a posse delas. Mas, é claro,
posso negociá-las, vendendo
o conhecimento dos caminhos,
melhor dizendo dos
descaminhos que nos levam
até elas. De muitas gerei
cópias legíveis nos
equipamentos de hoje. Às
vezes, dedico-me longamente
a trabalhar no projeto
visual de uma delas, que
escolho para dar de presente
à mulher por quem esteja
apaixonado. Zelo com muita
cautela pela preservação do
texto, mas me esbaldo com a
liberdade na criação de um
design único da obra. Outro
dia, por exemplo, gerei em
formato multimídia a
história de Poe intitulada
O poço e o pêndulo.
Associei a imagens de filmes
antiqüíssimos o texto
original narrado em vários
idiomas que se mesclavam
numa interlíngua cacofônica
e musical. E o texto se
desdobrava não nas páginas
de um livro, mas nas paredes
de um poço que se perdia
numa escuridão infinita.
Disseram-me que era uma
espécie de buraco negro da
leitura.
Ignoro até
onde me levará essa devoção,
a adoração por esse objeto,
por esse fetiche, que,
admito, me condiciona a
vida, enviesa-me a percepção
das coisas, afasta-me da
presença dos seres humanos.
Mas sei que nada de melhor
existe do que a experiência
que sinto cada vez que
percorro aquela lista imensa
de títulos, que os ordeno e
reordeno de diferentes
formas, e me ponho quase em
delírio diante das
possibilidades infinitas de
leitura. Misturar, em
coquetel psicodélico,
trechos de autores
diferentes, enxertar uns
personagens nos outros,
alterar desfechos, inverter
sentidos.
Não sei se
hoje estarei a ler sozinho
ou se me sintonizo com
outros que estejam em
lugares imprevisíveis lendo
o mesmo texto que eu, e,
assim, em gentil comunhão de
prazer, troquemos
conhecimento e experiência.
Outro dia, estive a
interagir com uma bibliófila
eletrônica que não só lia
Madame Bovary, mas se
considerava a reencarnação
dela. Espetacular.
Agora, quando
não posso eludir a
possibilidade do encontro
com meu fim, assola-me a
angústia que, tenho certeza,
assolou os colecionadores de
todos os tempos: a quem
legar o que reuni. Confesso
que, diante da indiferença
das novas gerações com a
reunião inútil e sem sentido
de tanta velharia, tenho
vontade de deletar tudo.
Apagar os roteiros que me
levam às obras perdidas nas
catacumbas do mundo virtual.
Destruir os inúmeros tipos e
formatos de livros
eletrônicos. Fazer um
auto-de-fé de tudo. Pois
também nisso pode haver
parentesco entre o livro de
hoje e o de antigamente. O
parentesco dos genes que
levam à criação e à
destruição, ao amor e ao
ódio, à tolerância e ao
radicalismo excludente.
© 2005
Briquet de Lemos
Ilustração: Arcimboldo, The
Librarian, 1566.
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