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BORGMAN, Christine L. From Gutenberg to the global information infrastructure; access to information in the networked world. Cambridge, Mass.: MIT Press, 2000. 324 p. (Digital libraries and electronic publishing) ISBN 0-262-02473-X. US$ 42,00.

 

 Este é o segundo volume da série inaugurada em 2000, pela editora do Massachusetts Institute of Technology (MIT), com o livro Digital libraries, de William Y. Arms, objeto de recensão em outro lugar deste número da Revista de biblioteconomia de Brasília. Sua autora  formou-se em matemática, tendo obtido mestrado em biblioteconomia e doutorado em ciência da informação. Leciona e pesquisa na University of California, Los Angeles, e é professora visitante da Loughborough University, Reino Unido. Seu currículo mostra vivência com as questões da utilização da informática no campo da informação, tendo trabalhado como docente e consultora não só em instituições dos Estados Unidos, mas também de países da Europa central e oriental (mais detalhes em http://dlis.gseis.ucla.edu/cborgman/).

 

               Este livro surge em momento oportuno, quando a proliferação de opiniões acerca das questões de que ele trata muitas vezes tem toldado o entendimento e a percepção das mudanças por que vimos passando no campo da informação. Essas mudanças e sua aceleração são campo fértil para as mais desvairadas previsões, particularmente no que se refere ao potencial que essas mudanças teriam para acabar destruindo, inapelável e radicalmente, práticas e técnicas bibliotecárias que têm raízes profundas e antigas. A perspectiva da autora é de que essas mudanças não são nem revolucionárias nem evolucionárias, mas que se situam de certo modo entre essas duas posições, ou seja, seriam co-evolucionárias. Para ela, o cenário do futuro situa-se em algum ponto entre os cenários de descontinuidade e continuidade.

 

               O eixo em torno do qual gravitam as idéias e formulações do livro é a questão do acesso à informação num mundo interligado por redes  telemáticas. Essas idéias e formulações alicerçam-se em minuciosa análise da literatura pertinente publicada majoritariamente na última década do século XX (são 39 páginas de referências), embora tenha havido espaço para lembrar uma grande obra da década de 1930, o até hoje atual Traité de documentation, de Paul Otlet, um dos pioneiros da idéia de um sistema universal de informação (p. 237).

 

               Em nove capítulos o livro trata das seguintes questões: a premissa e a promessa de uma infra-estrutura global de informação, analisando os conceitos de adoção e adaptação de tecnologias, infra-estrutura e a co-evolução de tecnologias e comportamento humano; os conceitos de bibliotecas digitais, que surgem de perspectivas múltiplas e concorrentes entre si; a definição do que significa ‘acesso à informação’; o ciclo de criação, utilização e busca de informações; as dificuldades de uso das bibliotecas digitais e as formas de facilitar esse uso no futuro; o papel das bibliotecas como instituições e sua adaptação à era das redes de computadores; os problemas suscitados pela necessidade de projetar sistemas de informação para serem usados localmente sem perderem a visão global que a tecnologia proporciona, como os que se referem a normas e padrões, intercâmbio de dados, portabilidade, interoperabilidade, língua, etc.; e, finalmente, o conceito de uma biblioteca digital global e os desafios implícitos na passagem da Internet para uma estrutura global de informação.

 

               A escrita do texto é clara e flui sem tropeços, mesmo diante da enorme quantidade de informações e opiniões recolhidas da bibliografia consultada. Um dos pontos altos do livro é, sem dúvida, a preocupação com a clara definição dos conceitos, o que a autora faz depois de examinar definições propostas por outros autores. Vejamos um primeiro exemplo. “Defino ‘acesso à informação’ como a conectividade a uma rede de computadores e ao conteúdo ali disponível, de modo tal que a tecnologia seja utilizável, o usuário detenha as habilidades e conhecimentos que dele se exigem, e o próprio conteúdo se apresente de forma utilizável e útil.” E, para os desavisados, ela lembra que “em suma o acesso à informação é um conceito rico que incorpora uma multiplicidade de questões comportamentais, filosóficas, técnicas e de política. Haure conhecimentos de muitas disciplinas relativas à informática, redes, telecomunicações, sistemas e serviços de informação, documentos e documentação, questões sociais e comportamentais, e instituições sociais, como bibliotecas, arquivos e museus”(p. 80). O segundo exemplo de definição refere-se à ‘biblioteca digital’. Em relação a ela, Christine Borgman faz uma detalhada análise das várias definições propostas, acabando por propor que as “bibliotecas digitais são uma extensão, aperfeiçoamento e integração tanto dos sistemas de recuperação de informações quanto das múltiplas instituições que lidam com a informação, das quais a biblioteca é apenas uma. O âmbito das possibilidades das bibliotecas digitais inclui não só a recuperação, mas também a criação e uso da informação” (p. 48). E uma ‘biblioteca digital global’ seria “um construto útil que abrange todas as bibliotecas digitais que estejam conectadas e sejam acessíveis por meio de uma infra-estrutura global de informação. Uma biblioteca digital global não seria uma entidade única, nem seria controlada por uma única organização, qualquer que fosse” (p. 48).

 

               Em sua visão ampla e humanística, que não se rende à facilidade do raciocínio onde predomina (equivocadamente) o viés tecnicista, a autora afirma que muitas vezes as opiniões sobre “os efeitos das tecnologias da informação sobre a sociedade, e vice-versa, baseiam-se em pressupostos simplistas acerca de tecnologia, comportamento, organizações e economia. Nenhum desses fatores existe num vácuo; eles interagem de formas complexas e muitas vezes imprevisíveis” (p. 3).

 

               Este não é um livro onde se encontram respostas imediatas e fáceis para nossas dúvidas sobre o presente e o futuro do mundo da informação. A autora quer que ele sirva para “estimular o debate [das questões que suscita] entre usuários e projetistas, pessoas e organizações, criadores e fornecedores, trabalhadores e estudantes, jovens e velhos, de todas as profissões, e de todas as partes do mundo” (p. 269). E cita Pamela Samuelson, que, por sua vez, estava a parafrasear Clemenceau (“La guerre, c’est une chose trop grave pour la confier à des militaires”): “o acesso à informação é um problema importante demais para ser deixado inteiramente nas mãos de autoridades do governo, de responsáveis pelas políticas empresariais, bibliotecários, arquivistas, cientistas da computação ou advogados” (p. 269).

 

               Para os bibliotecários, sejam os conservadores resistentes a mudanças, sejam os revolucionários impositivos, é bom ler o capítulo 7, apropriadamente intitulado “Whiter, or wither, libraries?” (jogo de palavras, que se poderia traduzir aproximadamente, como ‘bibliotecas: seu destino ou seu declínio’). Ali, a autora lembra que a questão real não se refere à necessidade ou não das bibliotecas no mundo das redes globais, mas, sim, qual a melhor maneira de elas proporcionarem acesso à informação nesse mundo. “As bibliotecas em sociedades democráticas fazem parte de uma estratégia social em prol da promoção do aprendizado e da invenção, e para garantir uma cidadania informada. À medida que os métodos de criação, busca e utilização da informação são adaptados aos documentos digitais e às redes distribuídas, os meios para manter esses valores sociais vão sendo reavaliados” (p. 205). 

 

               Já se pode considerar este livro como um marco na literatura especializada, e que nos proporciona uma das sínteses mais bem elaboradas sobre o que se tem feito nas últimas décadas, principalmente no mundo desenvolvido, no campo da organização e difusão da informação baseadas na informática e telemática. Ao suscitar uma enorme variedade de questões e mostrar as lacunas tanto em termos de conhecimento quanto de tecnologias, a autora oferece uma contribuição muito mais útil do que se tivesse apresentado uma visão meramente descritiva do que lhe poderia parecer uma realidade já ‘resolvida’. A presença a todo instante de tópicos de natureza técnica, o que é necessário e compreensível, não torna difícil a leitura do livro. Ressalte-se ainda que a autora permeia sua visão do tema com preocupações culturais, políticas, sociais, econômicas e comportamentais.

 

               O texto apresenta-se muito bem estruturado. Ressente-se, porém, de um índice onomástico, e o índice temático poderia ser mais minucioso. Falha, embora observada e justificada pela autora, é a atenção que devia ter merecido a grafia das palavras de línguas onde é comum o uso de sinais diacríticos ou letras especiais que diferem das usadas na língua inglesa.

 

               Um livro que, ao traçar todo um painel da evolução e do atual estado do campo da informação, em seu percurso rumo ao horizonte desejado da universalização do acesso, coloca-se, de modo notável, como uma das melhores contribuições ao processo de se repensar e reavaliar a ampla galáxia de que fazem parte as bibliotecas e instituições assemelhadas. Leitura imprescindível para todos que se interessam pela questão da produção, organização e difusão da informação, sejam estudantes ou profissionais. Uma fonte de ensinamentos e questionamentos sobre temas da maior atualidade e um poderoso estímulo ao pensamento crítico da realidade que nos cerca e das tendências que se delineiam no mundo da informação.

 

Briquet de Lemos

 

 

 
 

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