
|
Briquet de Lemos
PRESENTE E FUTURO DO PERIÓDICO CIENTÍFICO
Correio Braziliense,
Brasília 13 jul. 1968, Caderno Cultural, p. 3
{Observação. O leitor deverá ter sempre presente a data de publicação deste artigo: 1968.}
Le Journal des Sçavans: a fértil semente
Entre outras características importantes que o marcaram, foi no século xvii que se assentaram as bases da ciência moderna, através do rompimento de preconceitos e opiniões deformadas, até então vigentes, e da abertura de novas áreas de pesquisa, num esforço sério e constante de esclarecer os fenômenos que nos cercam.
Galileu, Newton, Kepler, Leibniz, Gilbert, Huygens, Malebranche, Bacon, Harvey, Descartes, Hooke e Leeuwenhoek foram do infinito das distâncias cósmicas ao infinitamente pequeno do mundo microscópico. Especularam sobre a natureza do homem e dissecaram o próprio homem. Na França, Países Baixos, Inglaterra, Itália, na Europa central e na Escandinávia, os antecessores dos pesquisadores de hoje, em sigilo, como era comum à época, ou de público, para destruir suspeitas e infâmias, faziam demoradas experiências, cujos resultados davam à divulgação em tratados definitivos. No curso da elaboração de suas pesquisas, voltavam-se para colegas de outras localidades e, por meio de correspondência pessoal, esclareciam questões e trocavam idéias. Esta forma de comunicação epistolar supria a falta de meios adequados para a veiculação de idéias e experimentos científicos.
O mundo europeu, em plena fase de expansão colonialista, depois de atravessar uma grave crise econômica, conseguia retomar seu ciclo de desenvolvimento. O mercantilismo impulsionou a vida urbana, fez surgir novas necessidades e desencadeou o primeiro surto industrial. Surgiram universidades, academias, gabinetes e sociedades científicas. Ao findar do século fundaram-se os primeiros observatórios astronômicos: Paris e Greenwich.
É nesse fermento de novas idéias, nesse desenvolvimento de novas relações sociais, que surgem os primeiros periódicos científicos, a fim de atender às necessidades de divulgação das novas técnicas industriais, como é o caso de Le Journal des Sçavans, ou dos resultados das pesquisas científicas, como é o caso das Philosophical Transactions. Ao divulgar, mais ampla e rapidamente, os resultados parciais ou completos das investigações, o periodismo científico passava a estimular o próprio desenvolvimento das ciências.
A partir de 1780–1790, quando surgem os periódicos abrangendo campos especializados e quando começa a se cristalizar a forma que tem atualmente o artigo científico, verifica-se que a informação científica passa a ter uma forma fragmentária, pois vão desaparecendo paulatinamente os grandes tratados, os livros de teses, em que se relatavam anos de experiências. A noção de sistema acabado e completo passa a ser substituída pela de análise parcelada, em profundidade, de áreas bem delimitadas. A síntese já não é mais obra de um homem só, mas o acúmulo de experiências de cientistas diversos, trabalhando em lugares diferentes, mas valendo-se de materiais e métodos cada vez mais padronizados, buscando resposta a problemas confluentes, evitando a duplicação de tarefas, em verdadeira obra coletiva internacional.
Foi em 8 de agosto de 1664 que Denis de Sallo obteve o privilégio para impressão de Le Journal des Sçavans, cujo primeiro número apareceria em 5 de janeiro de 1665. Nascia o periodismo científico com o compromisso declarado de: 1) proporcionar “um catálogo exato dos principais livros a serem publicados na Europa”, não se contentando “em dar simples títulos, como faz até hoje a maioria das bibliografias”, informando ainda sobre o conteúdo e a utilidade desses livros; 2) imprimir necrológios de pessoas famosas com uma bibliografia de suas obras; 3) divulgar experiências em física, química e anatomia que pudessem servir para explicar fenômenos naturais, descrever invenções de máquinas úteis ou curiosas e registrar dados meteorológicos; 4) citar as principais decisões dos tribunais civis e eclesiásticos e censuras de universidades, e 5) informar os leitores sobre todos os acontecimentos dignos da curiosidade humana.
Atravessando períodos de dificuldades, Le Journal des Sçavans sobreviveu até nossos dias.
A advertência bíblica
“E demais disto, filho meu, atenta: não há limite para fazer livros, e o muito estudar enfado é da carne” é a advertência do Eclesiastes (12:12) à qual o homem jamais deu ouvidos. Pois dois meses depois do aparecimento de Le Journal des Sçavans surgiram as Philosophical Transactions, que, a partir do século xviii, passariam a órgão oficial da Royal Society. Ao findar do século xvii, já tinham sido fundados cerca de 30 periódicos científicos, muitos de vida efêmera.
De 1665 para cá, o crescimento da literatura científica foi exponencial, conforme demonstrou um bibliotecário norte-americano, Fremont Rider, na década de 1940. Segundo ele, os acervos das grandes bibliotecas universitárias norte-americanas dobravam de volume de 16 em 16 anos. Dessa forma, no ano de 2040, a biblioteca da universidade de Yale, por exemplo, teria cerca de 200 milhões de volumes, ocupando mais de 9 600 km de estantes, e com um acréscimo anual de 12 milhões de volumes, o que exigiria, pelas técnicas tradicionais, mais de seis mil pessoas para catalogá-los.
Atualmente, calcula-se que apenas no campo das ciências biológicas sejam publicados, por ano, cerca de 750 mil artigos científicos. A cada ano, apesar de todas as limitações, como as de ordem financeira, acarretadas pelas guerras e outras calamidades, aumenta o volume de pesquisas em cada país. Essas pesquisas têm de ser comunicadas com eficiência e rapidez, não só para que sejam incorporadas imediatamente ao patrimônio do saber científico, mas também porque essa comunicação fertiliza a pesquisa em todos seus níveis, desde sua concepção e desenvolvimento até sua consecução.
Os cálculos quanto ao número de periódicos científicos publicados atualmente têm variado de 100 mil a 30 mil. Um levantamento recente feito pela National Lending Library for Science and Technology, da Grã-Bretanha, chegou à conclusão de que somam 26 mil os títulos de periódicos científicos e técnicos em publicação, que contêm material de interesse para cientistas e tecnólogos. Quer sejam 100 mil, quer sejam 26 mil, o fundamental é que a ‘explosão da informação’ é um fato.
A cada dia surgem novos periódicos. A crescente especialização científica e o desdobramento de novas disciplinas têm levado a isso. Por exemplo, em 1967, dois periódicos especializados em microbiologia tiveram de se desdobrar para dar vazão ao fluxo cada vez maior de artigos no campo da virologia. Do Journal of Bacteriology nasceu o Journal of Virology, e do Journal of
General Microbiology surgiu o Journal of General Virology. E isso num campo relativamente limitado e que já contava com meios de comunicação eficientes, como Virology, Acta Virologica, Archiv für die Gesamte Virusforschung, Voprosi Virusulogii, Advances in Virus Research, Progress in Medical Virology, para citar apenas os mais importantes.
A explosão da informação poderá estar levando a ciência a um beco sem saída. Teme-se que os cientistas de amanhã, a persistir a tendência atual, estarão afogados num oceano de papéis. Admite-se até que seria então mais barato duplicar uma pesquisa científica do que investir dinheiro em buscas bibliográficas, com a finalidade de saber se essa pesquisa já teria sido realizada.
O periódico vai morrer?
Já faz alguns anos que começaram a surgir críticas, de parte de seus usuários, quanto à eficiência do periódico científico. Uns o criticam por retardar muito a publicação dos artigos que lhe são enviados. Outros, pelas restrições que as revistas impõem à extensão dos artigos e até quanto ao estilo. Outros, pela dispersão de artigos de uma determinada especialidade em periódicos de áreas afins ou até sem afinidade alguma. Um autor calculou que em uma revista muito especializada cada artigo interessa apenas a 10% dos que se ocupam da matéria tratada na revista; que um artigo de uma revista de caráter geral pode interessar somente a 2% de seus leitores. Outra crítica contra a revista científica é o alto custo de suas assinaturas: alega-se que o assinante paga forçosamente vinte ou trinta artigos que não lhe interessam, a fim de adquirir o documento que deseja.
A fim de fazer frente ao problema imediato, que é o aumento exponencial da documentação científica, lançou-se mão da tecnologia dos computadores, a fim de se alcançar a armazenagem e recuperação automática da informação. No entanto, até agora, pelo menos praticamente, logrou-se apenas a armazenagem e recuperação de referências bibliográficas, pois carecemos de recursos não-humanos que possam avaliar e assimilar as informações contidas nos documentos referenciados. A capacidade humana de leitura e assimilação é, em média, de 200 a 300 palavras por minuto. O computador pode, com fantástica eficiência, recuperar em minutos uma lista exaustiva de referências. Mas onde o tempo para ler tudo isso?
Mas essa já é outra história. Apesar de tudo, tem sido o periódico o principal veículo de disseminação das conquistas científicas, desde o começo deste século. As tendências e os esforços no sentido de substituí-lo encontram resistências, apesar de contarem com simpatia e apoio de muitos.
Em 1936, J.F. Pownall, sugeria pela primeira vez, que se eliminassem as revistas, passando as mesmas a serem publicadas como coleções de separatas que seriam reunidas de acordo com seu assunto. A partir de então multiplicaram-se as sugestões de substituição do periódico científico, sendo a maioria delas variantes da proposição inicial de Pownall. Um dos sistemas que ganhou mais fama foi o proposto por J.D. Bernal, segundo o qual cada país teria um centro de publicações científicas e intercâmbio, que receberia das associações científicas artigos aprovados por julgadores que os considerariam dignos de publicação e listas dos membros a quem deveriam ser enviados artigos de qualquer parte do mundo sobre assuntos específicos ou grupos de assuntos.
Parece-nos que foi somente em abril de 1961 — a proposta de Bernal era de 1945 — que se tentou levar à prática algo no estilo da proposta do cientista inglês. Nesse mês foi implantado pelos National Institutes of Health, dos Estados Unidos, o Information Exchange Group, que tinha como finalidade estimular o contato direto entre cientistas através da circulação de separatas de artigos não publicados no sistema formal de comunicação científica. O programa frutificou. Os cientistas interessados em psicologia experimental, por exemplo, inscreviam-se junto ao responsável pelo exchange group dessa especialidade, passando em seguida a receber gratuitamente cópias separadas de trabalhos não publicados escritos pelos membros daquele grupo, ao qual também poderiam encaminhar seus artigos inéditos para distribuição, numa espécie de circuito fechado. Em 1966, já havia seis desses grupos. No entanto, no início de 1967, eram os mesmos suspensos, sob a alegação de que os objetivos dessa experiência em comunicação tinham sido alcançados e que ficara demonstrada a viabilidade do sistema. Na realidade, o comunicado em que os Information Exchange Groups eram considerados extintos surgiu abruptamente e depois de uma acirrada campanha contra eles, movida pelos principais editores de periódicos científicos, que não admitem esses circuitos informais de comunicação em detrimento da revista tradicional.
Os editores, entretanto, têm sido forçados a concordar com os cientistas que a revista já não é um meio perfeito para transmissão de informações científicas e têm demonstrado sua disposição de colaborar na solução do problema. Uma solução que tem sido adotada por algumas revistas é a de publicar os artigos em fascículos separados, que os interessados poderiam adquirir de acordo com sua conveniência, e que periodicamente seriam reunidos em um volume. Nos Estados Unidos, um exemplo disso são os Proceedings of the United States National Museum, e, no Brasil, temos a Pesquisa Agropecuária Brasileira, em moldes semelhantes.
Quando Fremont Rider fez a célebre advertência sobre o aumento exponencial dos acervos das bibliotecas, procurava assim justificar o emprego em larga escala da microficha, invenção sua que hoje é amplamente usada. A microficha opaca já é usada para a edição de periódicos, como é o caso do índice especializado Pandex. Também as microfichas transparentes têm tido o mesmo emprego. Exemplo de periódico em microficha transparente é The International Microfilm Journal of Legal Medicine.
Atualmente, é impossível prever como serão os periódicos do futuro. Se se admite que a comunicação visual continuará assumindo importância cada vez maior, pode-se aceitar a hipótese de o periódico científico vir a ser substituído por um tipo de transmissão de imagens em que os cientistas relatem suas experiências para grandes audiências, nacionais e internacionais, ou para pequenas audiências, e a própria gravação dessa ‘representação’ — um videoteipe — passaria a constituir o documento formal, recuperável e referenciável.
Mas é problemático que, pelo menos a curto prazo, o periódico científico sofra modificações fundamentais. A fim de corrigir algumas das deficiências que têm sido apontadas em relação a ele, já se lança mão dos computadores. Principalmente com a finalidade de evitar os inconvenientes da dispersão dos artigos especializados, já se planejam métodos automáticos de disseminação seletiva da informação, que proporcionariam um serviço de documentação de acordo com as exigências individuais da clientela.
A partir deste ponto o campo fica aberto aos futurólogos e aos escritores de ficção científica. A se concretizar a previsão de Arthur C. Clarke de que no ano 2100 atingiremos a imortalidade, certamente então problemas relativamente mais simples, como o da comunicação científica, terão sido equacionados, provavelmente de modo a tornar tímidas as mais ousadas especulações dos mais imaginativos cérebros do mundo atual.
Nota. Na elaboração desta reportagem consultei principalmente os seguintes trabalhos:
1. Brown, W.S. et alii. The future of scientific journals. Science 158, 1 Dec. 1967, p. 1153-1159.
2. Confrey, E.A. Information Exchange Groups to be discontinued. Science 154, 18 Nov. 1966, p. 843.
3. Phelps, R.H. & Herlin, J.P. Posibilidades de substituir la revista científica; informe y bibliografía. Boletín de la Unesco para las Bibliotecas, v. 14, n. 2, p. 61-77, mar.-abr. 1960.
4. Porter, J.R. The scientific journal – 300th anniversary. Bacteriological Reviews, v. 28, n. 3, p. 211-230, Sept. 1964.
© 1968-2005 Briquet de Lemos
|